Crítica – Gran Torino (2008)

nota08

direção: Clint Eastwood
elenco: Clint Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang, Ahney Her
país: EUA
gênero: drama
ano: 2008

Clint Eastwood talvez seja, hoje, um dos maiores cineastas americanos vivo. E não é por menos. Dono de uma filmografia vasta e diversa, ele não teme arriscar, justamente o que fez nesse novo trabalho, Gran Torino. O diretor/ator assume uma personalidade forte para contar uma história aparentemente banal, mas que carrega consigo muitas significações sociais e políticas.

Gran Torino acompanha a vida do velho rabugento Walt Kowalski (o próprio Clint), 78 anos, ex-funcionário da Ford, por onde trabalhou por 50 anos. Agora, aposentado e viúvo, o ex-combatente da guerra da Coréia vive às turras com a vizinhança recheada de imigrantes de todas as regiões do mundo.

Eastwood não espera nem 2 minutos para mostrar as principais características de seu personagem: cansado, rabugento, preconceituoso e extremamente machista e nacionalista, Walt não mede palavras para criticar qualquer um à sua volta. E é assim no enterro da própria esposa ou numa tarde ensolarada qualquer. Ninguém escapa à língua felina do velho, que em diversas situações é considerado louco e sem noção. E, de certa forma, é: imerso num mundo completamente diferente daquele em que viveu nos últimos 40 ou 50 anos, ele parece ter parado no tempo dos carros potentes e bonitos e das guerras americanas contra povos do mundo.

Essa última temática, aliás, permeia quase todo o filme. Eastwood, como já falei, não é sutil nem na criação do personagem, nem na condução da narrativa. O roteiro, escrito por Nick Schenk e Dave Johannson, explora um assunto bastante delicado para o povo americano que, de um lado, demonstra orgulho tremendo de seus heróis de guerra (o caso do próprio Walt, condecorado com medalha de honra), mas de outro, sob a figura dos jovens a partir da década de 80, envergonha-se de um passado bélico recente. A metáfora no filme parece perfeita. Morando numa casa bonita e bem cuidada, Walt exibe com amor a bandeira dos EUA na porta e uma relíquia que reluz aos olhos de todos os vizinhos: um Gran Torino 1972, novo em folha.

A essa imagem soma-se a intolerância de Walt a todo tipo de coisa, desde religião, até a cor das pessoas, preferências sexuais e, principalmente, imigrantes. Mais uma vez, reitero: o filme não é nada sutil ao pintar esse quadro. Walt parece personificar a postura americana diante das outras nações, uma prática comum na história da terra do Tio Sam no século XX. E assim somos apresentados à intolerância, política do medo e não respeito às fronteiras individuais dos cidadãos do mundo. Os vizinhos de Walt da etnia Hmong, proveniente da Ásia, parecem fazer as vezes de diversos povos do mundo que sofreram na mão dos americanos. E, além disso, sofrem também por serem interpelados com uma ajuda que a princípio pode ser eficiente, mas que mostra-se fraca com o passar dos tempos (alguém se lembra do Vietnã, Coréia, Iraque e Afeganistão?).

Talvez querendo amaciar as críticas ou mostrar um lado mais humano, muitas das atitudes de Walt soam até engraçadas, fruto do belo trabalho de Eastwood na construção de seu personagem. O resto do elenco não compromete – algumas gangues de imigrantes são até um pouco exageradas e caricatas -, mas quem se sobressai é a jovem Ahney Her, que interpreta Sue, vizinha do ex-combatente e que vai construir uma singela relação com Walt.

Felizmente, Gran Torino não segue o caminho mais óbvio em seu desfecho, mostrando ao púbico uma importante lição (sem ser piegas) sobre a conduta social e política dos EUA, claro, sempre ancorada na figura do personagem principal.

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.