Crítica – O Leitor

nota07

direção: Stephen Daltry
elenco: David Kross, Kate Winslet e Ralph Fiennes
país: EUA e Alemanha
gênero: drama
ano: 2008
título original: The Reader

Dono de uma carreira sólida e de poucos filmes, o diretor Stephen Daltry mergulha na nova onda de filmes sobre o nazismo, apresentando o lado mais humano e passivo de protagonistas dessa triste página da história alemã e mundial. Em “O Leitor”, somos apresentados não só a um lado diferente dos alemães, mas também a uma história de amor que se confunde entre sexo, descoberta e culpa.

A história é contada a partir do ponto de vista de Michael Berg (David Kross), garoto de 15 anos que conhece Hanah Schmitz (Kate Winslet), anos mais velha, e passa a ter uma intensa relação amorosa. O romance, que durou apenas um verão, volta à tona anos depois, quando Berg já é um estudante de direito acompanhando um caso envolvendo mortes e holocasto, que vai pôr em cheque seu amor por Hanah e suas decisões que podem implicar no caso.

Adotando inicialmente como pontos centrais da narrativa o romance entre Berg e Hanah, o longa deixa de lado qualquer juízo de valor sobre o assunto e tende a se afastar do passado da personagem de Winslet e da relação de Berg com sua família. O público é imerso na quase infantil relação entre eles, dois personagens ávidos por sexo, porém com objetivos distintos. Enquanto Winslet dá um ar misterioso e concentrado a sua personagem – que parece buscar o sexo como fonte de escape de algo relacionado a sua vida solitária ou passado -, o garoto descobre o amor aos poucos, confundindo sexo com o próprio sentimento. Atitude essa nada anormal, já que ele tem apenas 15 anos e é guiado apenas pelos instintos e hormônios aflorados, típicos da idade. O romance, então, engrena e segue com alguns conflitos, mas que sempre terminam na cama.

A relação dos dois torna-se peculiar quando Hanah condiciona o sexo à leitura, por parte dele, de romances e histórias em quadrinhos. Ela parece sentir tanto prazer ouvindo Berg lendo, quanto fazendo sexo com ele. Essa dinâmica, contudo, demonstra a necessidade materna da personagem de Winslet que mais uma vez demonstra ser uma das melhores atrizes de sua geração. Uma cena que exemplifica bem o tom maternal dela é quando ela ensina o jovem como deve proceder em determinada posição sexual, de um tom quase didático. Além, claro, da maneira carinhosa e em certos momentos diminutiva que ela chama o amado, poucas vezes pronunciando seu nome e quase sempre o chamando de “garoto”.

Daltry adota uma direção contida, mas abusa da utilização da trilha sonora e na glamorização de algumas cenas de sexo, quando na verdade nada de espetacular tem ali. Na segunda parte do filme, o diretor segue firme, mas é prejudicado pelo roteiro, que dá excessiva atenção ao romance e peca ao não desenvolver a narrativa dentro do caso jurídico apresentado – quando Berg já é um estudante de direito e reencontra a amada anos depois. Esse caso, aliás, é que dá o teor diferencial ao filme, ou seja, a história nunca foi contada e parece ter diversas implicações, mas o roteirista David Hare gasta muito tempo estabelecendo a relação entre os dois amantes. Quando o filme chega ao fim, percebemos que muita coisa ficou no ar e a discussão que o longa levanta é deixada de lado para que o arco dramático dos dois protagonistas se feche perfeitamente.

Embora um pouco deslocado, Ralph Fienes faz de seu Michael Berg (em um outro momento do filme) um homem maduro, centrado e atormentado pela culpa de não ter resolvido seu passado de uma maneira mais “justa”. Antes, Kross também se destaca ao criar um jovem Berg solitário e deslocado do ambiente de sexo e festas da faculdade, preferindo estudar à sair com uma garota.

Prolongando demais o seu fim – não que o filme seja longo, mas é que a resolução final parece deslocada do restante da engrenagem -, Daltry adota um tom dramático demais ao destino de seus personagens, enfocando mais a culpa de Berg do que de Hanah, embora ambos tenham tido momentos de decisão igualmente difíceis em suas vidas.

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.