Crítica – O Lutador

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direção: Darren Aronofsky
elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei e Evan Rachel Wood
país: EUA
gênero: drama
ano: 2008
título original: The Wrestler

Ao falar de “O Lutator”, é impossível também não se lembrar da trajetória de Mickey Rourke, que interpreta o protagonista Randy “The Ram”. Com histórias bem semelhantes, os dois são vistos em trajetórias pouco lineares, mas de um enorme apelo dramático, num misto de superação e busca pela identidade que o filme dirigido por Darren Aronofsky apresenta aos espectadores.

O longa é mostrado a partir do ponto de vista de Randy “The Ram”, um lutador de luta livre que já viveu um grande sucesso no passado, mas que hoje luta apenas para sobreviver. Depois de receber a notícia de que tem que se aposentar, ele parte numa jornada de reviver antigos problemas e tentar retomar a vida da onde parece ter parado 20 anos atrás.

Na vida real, Rourke viveu os dois lados da moeda hollywoodiana: de um sucesso atrás do outro, o ator passou a amargar anos de ostracismo, para somente agora voltar ao auge de sua forma – embora tenha participado de outras produções na década de 90 e 00, como Sin City. O retorno não poderia deixar de ser numa história tocante e bela, em que somos apresentados a um Randy já maduro e consciente de suas limitações. O trabalho de Aronofskyé irreparável já no começo do longa, quando é mostrado uma narração em off e uma seqüência de fotos do velho Randy, o campeão de luta livre dos anos 80. A cena seguinte é um contraste perfeito da atual situação do ídolo: velho, cansado, mas ainda na ativa, ele demonstra estar no lugar perfeito para si, embora num corpo que claramente pede descanso.

O público não vê Randy no início. As cenas são filmadas de costas e com uma câmera levemente nervosa, demonstrando a inquietude da situação e escondendo o rosto do protagonista. Só vemos de fato a face do lutador depois de 5 minutos de filme, embora o vejamos de outro ângulo. E é impactante a hora que seu rosto é mostrado, numa cena escura e sombria, logo quando ele dá de cara com algums fotos antigas no carro. O trabalho de direção, aliás, é quase inretocável, sempre procurando mostrar o drama de Randy e suas implicações, mas sem nunca roubar a cena para si próprio.

O ídolo das lutas livres é quase sempre mostrado em seu ambiente favorito – ringues, academia, etc -, e quando não está lá, sofre e demonstra-se mais cansado ainda. Rourke entra de vez no personagem que, como foi dito anteriormente, possui uma história bastante semelhante com a dele. Perceba que em muitos momentos Randy está caminhando e o vemos de costas, quase sempre “bufando” de dor ou irritação, numa clara demonstração da capacidade técnica do ator ao criar um dispositivo simples para demonstrar o cansaço e enfado do personagem; é como se fosse um animal ferido, fato que ganha mais notoriedade se analisarmos a forma física “monstruosa” de Randy.

Ele é, portanto, um homem que vive uma dualidade. Se de um lado precisa ganhar dinheiro para se manter, do outro ainda é visto como ídolo de uma geração que persiste lutando não só para levar uns trocados a mais, mas também para satisfazer a si próprio. É somente nos ringues que ele se sente bem, embora sempre se machuque e precise enganar o público com golpes falsos e resultados armados. A velha situação só muda porque, em um dado momento do filme, Randy precisa parar de lutar, e é aí que ele resolve dar um rumo mais linear à sua vida.

Um dos pontos de sustentação dessa parte da narrativa é a prostituta Cassidy, muito bem interpretada por Marisa Tomei. Ela parece ser a única pessoa que tenha algum tipo de interesse além do lutador e do mito que ele traz consigo. E é interessante perceber como a história dos dois também se confunde, isto é, ambos estão velhos, na bancarrota e precisam mudar de rumo antes que algo pior aconteça. É justamente por isso, aliás, que o conflito existe. Tomei faz uma Cassidy segura, que só titubeia no momento certo. A química dela com Rourke é impecável, rendendo cenas belíssimas e profundas em seu tom dramático.

Nessa mesma linha está o outro ponto de sustentação que pode levar Randy a um outro patamar de vida. Embora distante da filha emocionalmente, o lutador vê na aposentadoria uma oportunidade de reconciliação com ela, fato que rende um das cenas mais emocionantes do longa, quando os dois estão conversando na praia e um simples gesto dela resume a cena e a nova relação dois dois. Aronofsky é sutil também em diversas outras cenas, conseguindo tirar de gestos, atitudes e imagens banais, grandes acontecimentos ou encaminhamentos para a história – perceba na cena em que Randy acorda de uma noitada e vê a foto da filha na geladeira; o simples olhar dele entrega o que aconteceu e o que acontecerá nos próximos minutos.

Com uma trama simples e objetiva, “O Lutador” mostra aos espectadores um homem ciente das suas limitações, mas que não pretende fugir ao seu destino inexorável, muito embora o esse destino faça com que ele tenha que tentar. Ao término da projeção, mesmo com o final seco, é possível imaginar o sofrimento e a felicidade de Randy ao tomar sua decisão final.

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.