Crítica – O Terceiro Homem (1949)

da série “Clássicos do cinema”

nota091

direção: Carol Reed
elenco: Joseph Cotten, Alida Valli, Trevor Howard, Orson Welles
país: UK
gênero: ação/suspense
ano: 1949
título original: The Third Man

Tido como um clássico incontestável do gênero noir, “O Terceiro Homem” é mais um filme de suspense do que de ação, embora a cena final do filme já esteja entre as mais espetaculares de todos os tempos no quesito tirar o fôlego. No restante do longa, acompanhamos uma história povoada de tipos misteriosos, reviravoltas e muita intriga entre os personagens, sempre filmada de maneira tecnicamente brilhante.

“O Terceiro Homem” apresenta a história de Holy Martins, um escritor em decadência que chega a Viena para encontrar o amigo Henry Lime, mas se surpreende ao encontrá-lo morto. Em dúvida de que ele realmente morreu num acidente de carro, parte em busca da verdade, interrogando os envolvidos e se envolvendo com a bela Anna Schimdt, ex-namorada do falecido.

A história, contada de maneira simples e direta, é feita para que sempre tenhamos dúvidas do que vem a seguir. Na Viena pós-segunda guerra, a dúvida e a ambiguidade são pontos centrais para entender o envolvimento dos personagens com o próprio ambiente e com o assassinato que move o enredo. Martins, escritor em decadência e sem muitas perspectivas de vida, vê na morte do amigo uma possibilidade de tentar vingá-lo e para isso segue seus instintos e convicções, muito embora não tenhamos, em momento algum, qualquer tipo de certeza sobre quem está certo: se o próprio Martins ou os demais amigos do morto.

Mesmo com essa via dúbia, o roteiro não se mostra confuso, pelo contrário, consegue estabelecer bem todas as relações e reviravoltas que acontecem. Se Martins é um homem agora obstinado, também nutre especial carinho por Ana, ex-namorada de Lime. Os dois estão sempre entre olhares, astutos e sorrateiros e quase sempre em comunhão de opinião, mas há algo que ainda intriga o escritor. Um pouco diferente acontece com os amigos do morto, que Martins desconfia desde o princípio, mas não consegue achar nada de concreto para incriminá-los. Na cartilha do bom suspense, todos sabem, isso não quer dizer nada, e parece que o escritor está sempre à frente e perto de achar o assassino, mas quase sempre se perde nas contradições e rumos diferentes que a história do atropelamento toma a cada versão.

Na tela, Carol Reed faz um trabalho minucioso de construção narrativa. Mergulha de vez no gênero noir ao apresentar os personagens em oposição e quase sempre na dialética claro X escuro. Ele abusa dos cigarros, fumaças, sombras (a qualquer hora do dia os personagens são emergidos em sombras) e luzes difusas, tudo para enfatizar o clima de dúvida e suspense que o filme carrega consigo. A fotografia cuidadosa de Robert Krasker privilegia as lacunas de sombras e escuridão para revelar momentos da história no momento exato em que devem aparecer. Somos, então, brindados com personagens furtivos saindo de sombras e revelando-se à luz da lua, ruas desertas e sombrias, homens de sobretudo cruzando as avenidas e muito jogo de claro X escuro, grande característica do cinema noir.

Se estamos acostumados aos filmes atuais de ação com muita barulheira, tiros, perseguição de carros e reviravoltas sem sentido, “O Terceiro Homem” foge dessa linha ao privilegiar não a ação corrida, mas sim a ação dos próprios personagens, sempre procurando intuir no espectador que aquilo pode nem sempre ser o que parece.

P.S.: eu não comentei a não menos brilhante participação de Orson Welles no filme, porque qualquer coisa que eu fale a mais do que isso pode estragar um dos grandes momentos do longa.

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.