Crítica – Quem Quer Ser um Milionário? (2008)

nota06

direção: Danny Boyle
elenco: Dev Patel, Freida Pinto, Azharuddin Mohammed Ismail, Ayush Mahesh Khedekar
país: UK/Índia
gênero: drama/romance
ano: 2008
título original: Slumdog Millionare

Surfando na onda pop em que se meteu no lançamento do seu novo filme, “Quem Quer Ser um Milionário”, Danny Boyle foi visto nesse filme mais como um grande realizador do que um bom contador de histórias. E nesse fato parece residir o grande problema do filme: querendo ser maior do que realmente é, “Quem Quer…” peca ao tentar ser grande demais e esquecer boa parte de sua história, embora em muitos momentos a temática social funcione perfeitamente.

O filme acompanha a trajetória de Jamal e seu irmão Salim, em diversas situações durante a infância e a adolescência. Passando por maus bocados e enfrentando a pobreza, fome e criminalidade, os dois crescem e tomam rumos diferentes, embora Jamal seja eternamente apaixonado por Latika desde quando eram crianças. Paralelamente, é contada a história da participação de Jamal em um programa de televisão semelhante ao brasileiro “Show do Milhão”.

Boyle, conhecido por filmes de temáticas distintas e até alguns exageros, aparece novamente no cenário com um filme grandioso. Não adianta tentar analisá-lo com o viés social apenas – e a utilização de atores não profissionais, locações reais, temática social, etc. O roteiro, e consequentemente a direção de Boyle, segue uma linha muito perfeita. Tudo se encaixa milagrosamente, as falas são bonitas demais, os cenários riquíssimos cinematograficamente e o arco dramático se constrói de uma maneira catastroficamente bela. Ou seja, tudo dá errado para um final (desculpem os que ainda não assistiram, mas é óbvio demais) espetacular e grandioso. É inevitável.

O roteiro segue, em sua primeira parte, de maneira coerente. Privilegiando as travessuras de Jamal e seu irmão, Salim, somos apresentados a uma Índia muito longe do glamour do Taj Mahal e de outras produções, inclusive uma tal novela brasileira. Ponto para Boyle e Simon Beaufoy (roteirista), que inclusive emulam em muitas cenas acontecimentos do excelente Cidade de Deus – comparem a cena inicial do longa brasileiro com a cena em que os meninos correm dos policiais. A fotografia é bela e os cenários mais do que ideais para a temática social que “Quem Quer…” adota nessa parte inicial. Isto é, até certo ponto, quando somos bombardeados com a história fraca do programa de televisão, que nada acrescenta ao filme, apenas está lá para dar um clima de tensão totalmente indispensável. Ou alguém achou realmente que Jamal não responderia todas as perguntas corretamente? Essa informação, aliás, é dada nos primeiros minutos de projeção.

Essa alternância entre os dois momentos de Jamal é completamente dispensável, roubando o foco para algo sem relevância, uma vez que poderíamos estar acompanhando a história do garoto e suas conseqüências. Aliás, é interessante ver a relação dele com o irmão, Salim, talvez o personagem mais rico dramaticamente do filme. Sempre cruel e carinhoso ao mesmo tempo, Salim é dono de uma determinação grande e nunca foge ao destino de proteger o irmão, mesmo que para isso ele tenha que, às vezes, tomar decisões duvidosas. Latika, por sua vez, mostra-se bastante frágil e sem forças para lutar, justamente o oposto do seu par romântico Jamal.

O roteiro ainda peca ao compilar num filme de 2 horas uma infinidade de histórias fantásticas, numa clara intenção de tratar sobre inúmeros assuntos num tempo claramente impossível de cumprir. E assim os espectadores são apresentados a fatos históricos importantíssimos, mas sem nunca vê-los aprofundados: a mudança de nome da cidade, os mendigos, fúria religiosa, expansão imobiliária, etc. É uma passagem de tempo muito grande em tão pouco tempo de projeção – ou então seria o caso do filme abandonar a chatice do programa de televisão para dedicar mais tempo à temática social indiana, essa sim que funciona muito bem.

Esse complexo de grandeza que Boyle adotou se reflete, também, em inúmeras cenas “videoclípticas”, em que os personagens estão fazendo qualquer coisa (geralmente fugindo de algo, brincando ou representando um momento qualquer da vida dos garotos) com uma música ao fundo. A montagem é pop, rápida e certeira, da maneira que a geração MTV gosta. Menos, Boyle, menos.

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.