Crítica – Synedoque Nova York

nota06

direção: Charlie Kauffman
elenco: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Samantha Morton e Hope Davis
país: EUA
gênero: drama
ano: 2008
título original: Synedoche New York

A sensação que o espectador tem ao acabar “Synedoche, NY” é de exaustão – para o bem e para o mal. E não é pra menos: ao longo de 2h de projeção, Kauffman, em sua estréia como diretor, abre seu mais aterrorizante e confuso baú de memórias e conflitos existenciais, dando vazão a tudo isso da maneira mais caótica possível.

O filme acompanha a trajetória de Caden Cotard (Phlipe Seymor-Hoffman), atordoado diretor de teatro que vive às turras com sua própria consciência e vontades explícitas. Ao ver seu casamento terminado e afastado do convívio com a própria filha, Caden reuni um elenco grandioso pra realizar uma peça de teatro inusitada: contar sua própria vida.

Essa temática já é corriqueira na carreira de Kaffman (vide o excelente “Adaptação), mas dessa vez ele exagerou. A impressão que fica é que, como dessa vez ele também dirige o filme, não houve freio para suas inquietudes e maluquices, o que acaba comprometendo parte da obra. Kauffman é louco e tem uma visão de mundo fragmentada, e isso todos que acompanham suas histórias já conhecem, porém, dessa vez ele vai mais longe e afunda na sua própria consciência. É como se Caden fosse ele próprio na busca incessante pela perfeição estética e idealizada da vida.

Para realizar tudo isso, não faltam personagens e reviravoltas. Imagine dois espelhos voltados um contra o outro. Assim é Synedoche, com suas sucessões de diálogos fortes e personagens que se confundem entre si. Caden, a princípio, apaixona-se por Hazel (Samantha Morton), mas é casada com Adele (Catherine Keener). Quando o relacionamento acaba, ele volta seus olhos para a frágil Hazel, mas tudo acaba de uma maneira inesperada. Mesmo assim, os dois ainda voltam mais tarde, muito embora Caden no momento esteja ligado a Claire, atriz da companhia. Confuso? Não! Isso é pouco perto da confluência e relações complexas que cada um tem entre si.

É engraçado que, afora essas loucuras e viagens, Kauffman parece estabelecer grandes relações entre outras obras, seja de cinema ou literatura e teatro. E há muitas significações escondidas em cada cena, em cada diálogo e em cada movimento de câmera, o que reforça ainda mais a tese de que ele precisa de um freio. Este seria necessário, aliás, para dar mais fluidez à história, que em muitas passagens fica monótona. Em “Synedoche”, Kauffman não consegue produzir soluções visuais inteligentes para passagem espaço-temporal, como acontece em “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, roterizado pelo próprio e dirigido por Michel Gondry.

Talvez somente assistindo mais de uma vez para entender completamente o que se passa na cabeça de Charlie Kauffman, o gênio por trás de tanto existencialismo. Ou então, seria a hipótese mais razoável, ele precise ficar mais concentrado no roteiro e confiar na mão de outro diretor.

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.