Crítica de Filme – Che: O Argentino (2008)

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direção: Steven Soderbergh
elenco: Benicio Del Toro, Demián Bichir, Rodrigo Santoro
país: EUA
gênero: drama/biografia
ano: 2008
título original: Things Che, El Argentino

Assistir a “Che – O Argentino” pode ser uma experiência estranha. Se por um lado sabemos que um outro pedaço do filme virá para completar a história (do filme, não historiográfica), por outro também podemos analisá-lo dissociadamente. E é essa análise em separado que pode talvez arruinar, aos olhos de muitos, o longa de Soderbergh, mesmo ele tendo inúmeras virtudes narrativas e técnicas.

O longa segue o triunfo de Ernestro Guevara (Benicio Del Toro) e Fidel Castro (Demián Bichir) na revolução cubana, mostrando de maneira quase épica algumas batalhas que levaram os guerrilheiros cubanos ao sucesso. Em paralelo, também somos apresentados a algumas discussões políticas, sociais e econômicas, representada por um Che já ministro de Cuba.

Soderbergh divide todo o filme – e aí eu incluo a versão original de 4h30 que foi apresentada em festivais, mas dividida em dois para ser lançado comercialmente – em duas partes. De um lado ele conta a história do triunfo, isto é, a história da ascensão do poder de Fidel Castro até à vitória na revolução, mostrando desde conversas corriqueiras dos guerrilheiros, até decisões importantes de guerra. É praticamente um épico, porém Soderbergh não explora o lado espetáculo do negócio, e sim joga luz sobre um homem que luta por seus ideais, no caso o argentino Ernestro ‘Che’ Guevara. Fidel Castro pouco aparece nesse primeiro filme, sendo relegado a segundo plano mesmo sendo mostrado como o grande guia político-social do povo. Quem reina é definitivamente Che, que é interpretado de maneira sóbria e eficaz por Benicio Del Toro (não, não é a melhor atuação da carreira dele).

Paralelo à ascensão de Fidel e da guerra travada entre o poder de Fulgêncio Batista e as forças guerrilheiras, acompanhamos, em menor grau, um Che mais centrado e fixado como homem público da política. E é aí que Soderbergh acerta ao modificar completamente a fotografia dessas cenas, inserindo um novo olhar àquela figura que também acompanhamos lutando na linha de frente. O ar é carregado e mais tácito, e Che é um homem concentrado em suas obrigações políticas, talvez um Che muito mais próximo do nosso tempo do que imaginamos. E é por isso que Soderbergh põe na tela uma fotografia em preto e branco, revelando a imagem clara de Guevara como um líder e consciente disso. A estética tem como referência a famosa foto de Che tirada por Alberto Korda, uma imagem que roda o mundo até hoje e que o filme consegue captar bastante o espírito.

Voltando à parte da guerrilha, as cenas de ação de troca de tiros e bombas não é o principal, e sim as conseqüências daquilo tudo para o povo cubano. Se vemos um Che mais autoritário em relação aos soldados e subordinado diretamente a Fidel, também podemos ver no argentino alguns toques humanísticos experimentado por ele em sua trajetória até chegar ali. E, nesse sentido, é importante fazer uma ligação entre esse filme e “Diários de Motocicleta”, pois muito do que se viu no excelente longa de Walter Sales pode ser visto como conseqüência direta de muitos atos do revolucionário. Mesmo assim, a figura de Che já era, naquela época, de um mito, de um homem capaz de aglutinar multidões em busca de um único objetivo, mesmo que em alguns momentos ele tenha sido intolerante. Talvez para tentar afastar um pouco esse lado mítico, Soderbergh tenha tentado não mostrar o rosto de Che na maioria das cenas, relegando a fisionomia do revolucionário às sombras, exatamente como faz com muitos guerrilheiros anônimos. Fidel não; ele, juntamente com seu irmão Raul (Rodrigo Santoro numa atuação mais do que discreta. Era ele ali?) e outros revolucionários, tinham seus rostos mais bem iluminados e projetados para o espectador. Che, nesse ponto, é mais visto como um homem do povo.

Porém, por se mostrado como homem do povo, realizando tarefas que todos cumpriam (repare que Fidel é quase um marajá: só dá ordens e se reúne com os soldados, mas não é mostrado como sendo “mais um” no meio da multidão), “Che – O Argentino” foi visto por muitos como um filme romântico em sua concepção ideológica, o que definitivamente não é. O que Fidel fez depois, com certeza o filme de Soderbergh nem está e nem deve estar interessado em discutir, mas sim jogar luz sobre um momento singular da história da América Latina.

É difícil dizer, naquela época, quais eram os reais interesses políticos de Fidel Castro na revolução (o que pode, em parte, ser discutido hoje, 50 anos depois), mas é impossível que alguém passe mais de um ano comendo mal, dormindo ao relento, caminhando léguas e arriscando a vida diariamente se realmente um ideal humano e social não existisse. O resto, a seguir, é história a ser contada em outro filme.

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.