A indústria fonográfica e o futuro incerto

O mercado fonográfico brasileiro está de orelha em pé. De um lado o download, a pirataria e as novas mídias, e do outro o fenômeno religioso que não é de hoje. E esse último vende. E muito. É o que revela o relatório anual da Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD).

O cenário apresentado é de 2008, mas projeta um futuro incerto para a indústria da música. Parece que os produtores aprenderam que nadar contra a maré dos downloads e dar murro em ponta de faca não vale mais a pena. Para quê tentar dizimar sites de compartilhamento de música se em dois minutos outro endereço é criado e todo mundo corre para lá? A idéia agora, e esse “agora” já vem de algum tempo, é disponibilizar a música em diversos formatos, inclusive o download. Nos EUA e Europa, baixar música é uma experiência completamente diferente da nossa brasileira, em que ninguém quer pagar por nada. Os gringos pagam, desde que achem que aquilo realmente valha a pena.

Quem mais vendeu CD em 2008 (no Brasil):
Padre Fábio Melo, com o álbum “Vida” (Som Livre)

Quem mais vendeu DVD em 2008 (no Brasil):

Padre Marcelo Rossi, com o álbum “Paz Sim, Violência Não” (Sony Music)

O relatório da ABPD é bem elucidativo. A própria entidade já admite uma mudança de rumo no modelo de negócios do comércio de música: “Com as novas tecnologias e o uso da Internet como ferramenta essencial ao nosso dia a dia, os hábitos de consumo de música mudaram completamente, e a própria relação entre produtores de música, artistas e o público consumidor alterou-se de tal forma, que vivemos um mercado musical em muitos aspectos diferente hoje, se o comparamos ao existente dez anos atrás”, diz o relatório. A constatação do óbvio vem oficializar que a indústria fonográfica está atrás de um novo modelo de negócio, numa tentativa de repetir uma situação de lucros extremos nos anos 90, quando bandas de esquina com um hit conseguiam facilmente vender 1 milhão de cópias; grandes artistas, então, ultrapassavam essa barreira a cada novo lançamento. A “farra do boi gordo” acabou. E agora?

A comercialização de música digital no Brasil corresponde a 12% do total gerado
A telefonia móvel é responsável por 78% desse faturamento
O crescimento desse mercado é de 79% em relação a 2007


Se eles não sabem, quanto mais nós pobre mortais, consumidores ávidos por novidades e por consumir música – sim, nós queremos mais! Diversos artistas tentaram/tentam furar esse bloqueio e lançam projetos inteligentes, mas ainda não há a constatação de que esses modelos possam perdurar (Radiohead, Nine Inch Nails, Móveis Coloniais de Acaju, Caetano Veloso…). A ABPD está atenta, é claro, e tenta acordar, assim como outros órgãos internacionais. A vedete do momento é a telefonia móvel – quando, há alguns anos, alguém imaginaria que ringtone daria tanto dinheiro? Muitas bandas já lançam CDs diretamente em aparelhos, atrelando assim uma compra e promovendo bons resultados (Mallu Magalhães, Nx Zero e U2). Tem ainda os games, um filão interessante de distribuição e trilha sonora, inclusive de músicas inéditas.

O que é engraçado constatar, no entanto, é a contornada estatística que a ABPD tenta dar ao divulgar esse relatório. A entidade comemora um crescimento na comercialização de música no país – só se esquece que a comparação é com 2007, o ano em que a venda de música desabou vertiginosamente. Pior que 2007 era quase impossível. Os próximos dois anos serão decisivos.

imagem do início do post: Dreamstime

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.