Crítica de Filme – Budapeste (2009)

nota08

direção: Walter Carvalho
elenco: Leonardo Medeiros, Giovana Antonelli, Gabriella Hámori
país: Brasil/Hungria
gênero: drama
ano: 2009

Uma história densa. Se fosse pra resumir em poucas palavras seria dessa forma que eu faria, embora “Budapeste” não seja chato nem pesado, e sim um filme cheio de nuances, com um elenco afiado e a direção do sempre competente Walter Carvalho. No filme, tudo é, mas tudo pode verdadeiramente ser diferente.

“Budapeste” conta a história de Costa, um ghost-writer carioca que faz sucesso escrevendo romances e biografias para terceiros, sem nunca ganhar crédito com isso. Sua vida começa a mudar quando ele conhece a capital da Hungria, que parece fornecer um grande fascínio sobre ele e que vai mudar para sempre sua vida.

Walter Carvalho não é qualquer um. Dono de uma carreira quase irretocável como diretor de fotografia – assinou essa direção em filmes como Amarelo Manga, Abril Despedaçado e Lavoura Arcaica -, ele estréia agora na direção. E logo de cara enfrenta o desafio de transpor para as telonas uma história aparentemente simples, porém com uma carga de complexidade enorme. À primeira vista, “Budapeste” é bem cotidiano, um drama típico de um artista competente que não consegue reconhecimento profissional, enfrentando ainda problemas familiares. Mas não, a densidade dramática do livro de Chico Buarque é grande – e Carvalho parece que tem a exata noção disso. Por esse motivo, o diretor escolheu o elenco a dedo (tudo bem, Giovana Antonelli é o deslize, mas ela não compromete), que consegue conduzir as nuances e detalhes de cada personagem de uma maneira bastante competente. Claro, o protagonista é o sempre excelente Leonardo Medeiros, que mais uma vez se entrega de corpo e alma a Costa, um homem maduro e consciente de si mesmo, mas que enfrenta problemas sérios de auto-afirmação e insegurança.

Essas duas últimas palavras, aliás, poderiam revelar muito bem o que é o filme: auto-afirmação e insegurança. Diversos personagens (ou todos) sofrem dessas adversidades, desde Costa – que tem orgulho de ser ghost-writter, mas no fundo sofre horrores por não ser reconhecido na rua, como sua mulher Vanda (Antonelli) -, passando pela própria Vanda – que a todo momento pede opinião alheia quanto a seu trabalho como âncora de TV, além de babar quando alguém a entrevista – até chegar a Kriska (Gabriella Hámori), o amor húngaro de Costa que nutre um sentimento dúbio em relação ao brasileiro.

Dentro desse contexto, a narrativa é inicialmente criada de forma linear, mostrando os problemas sérios que Costa enfrenta no Rio até chegar ao momento redentor em Buapeste, a “cidade amarela”. Esse é o ponto crucial do filme, já que entender o fascínio social, físico (vide o caso do cigarro “andorinha”) e amoroso de Costa com a cidade é imprescindível para captar o desenrolar da história. Falando assim parece realmente complicado de seguir o filme, mas verdadeiramente não é. Quando está em Budapeste, Costa se transforma e passa a viver como se estivesse olhando para o espelho da sua própria alma – e não é à toa que em vários momentos do filme espelhos são vistos em cena. Essa relação é tratada de forma incrível por Carvalho, que emprega o filho Lula na direção de fotografia e faz com ele uma dobradinha essencial para a construção narrativa através das cores. Os sentimentos internos de cada personagem perpassam as ruas e corredores da história para chegar ao espectador na cor certa e no tom manipulado de forma audaz pela dupla de pai e filho.

Analiticamente, dá para fazer um paralelo entre Budapeste e dois filmes recentes: Encontros e Desencontros e Romance. Esse último, uma escorregada feia do cinema nacional, mais pelo fator metalinguagem, que é fartamente explorado no filme de Carvalho e de uma maneira sutil ao longo de todo o filme. Com o longa de Sofia Coppola, pode-se comparar a diferença local de língua, costumes e cultura entre dois países diferentes e como um personagem consegue lidar com isso. Aqui, Costa desenvolve uma intricada relação de amor e ódio com a cidade, envolvendo-se com putas, bêbados, figuras decadentes, mas também com o mundo intelectual do local.

Esses detalhes enobrecem o filme, embora Walter Carvalho derrape um pouco no exagero de determinadas cenas (claro, ele queria pontuar com bastante clareza algumas cenas, mas não precisava tanto) e em outras de nudez – contei seis momentos de sexo explícito. De qualquer modo, poder assistir a um filme que nos dá, além de uma ótima sensação momentânea, farto material para discussão posterior, é realmente enobrecedor.

P.S.: para quem gosta de futebol, preste atenção nos nomes dos personagens húngaros. São uma homenagem ao glorioso time da Hungria de 1954. Puskas está lá, outros já me disseram que também são lembrados, mas eu não reconheci. Bela homenagem.

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.