Crítica de Filme – Inimigos Públicos (2009)

nota08

direção: Michael Mann
elenco: Johnny Depp
país: EUA
gênero: ação/policial
ano: 2009
título original: Public Enemies

É curioso constatar o fascínio que figuras fora-da-lei provocam nos fãs de cinema. Desde suas peripércias e habilidades geniais de enganar a polícia, esses elementos são fartamente tratados pelo cinema – e é justamente sobre isso que se trata “Inimigos Públicos”, um filme que põe na telona um pedaço da história de um dos maiores assaltantes a banco dos EUA, John Dillinger.

“Inimigos Públicos” segue o lendário John Dillinger (Johnny Depp) em seus suntuosos assaltos a bancos que marcaram o início da década de 30 nos EUA. Para tentar pega-lo, a polícia conta com a obstinação do agente Melvin Purvis (Cristian Bale) e o restante da polícia que é constantemente humilhada por Dillinger e seu bando.

Michael Mann, diretor de uma carreira irregular, e toda sua equipe empregam todos seus esforços na tentativa (acertadíssima) de recriar o ambiente pós-crise de 1929. O trabalho técnico de arte é quase impecável ao colocar na telona os trajes, carros, ruas e pessoas típicas da época, um fato que demonstra ser imprescindível para a compreensão total da obra. O apuro técnico é bastante visível nos pequenos detalhes, como nas fitas de escuta telefônica, rádios, chapéus e especialmente na estrutura física do Bureau de investigação. Nesses detalhes também residem o casamento perfeito entre técnica e interpretação.

De nada adiantaria um visual excelente com atuações fracas – e é justamente o contrário que acontece. Depp é mais uma vez eficiente, só que sem usar de maneirismos físicos para demonstrar suas emoções. A todo momento, ele cria um Dillinger ao mesmo tempo obcecado e sensível, como quando é rápido e cirúrgico num assalto a banco, mas sem levar um centavo dos clientes. A dinâmica de seus roubos, aliás, forma um pilar importante do longa: de uma simplicidade quase risível, em nenhum momento são usados aparatos especiais para a realização, e sim a capacidade intelectual e o poder armamentício da gangue de Dillinger. É essa base de sustentação que é levada para o resto do filme: o criminoso é, mais do que tudo, um bon vivant do crime, um homem que preza pela beleza da vida e de seu amor, Billie (Marion Cotillard).

Claro que essa romantização de um criminoso muita vezes implacável é devido ao fato dele brincar com a polícia. E é aqui que entra Bale, numa interpretação correta de um agente Purvis ciente de seu objetivo: pegar a todo custo o bandido. Uma dinâmica, aliás, já bastante conhecida pelos espectadores (basta lembrar do ótimo e divertido “Prenda-me se For Capaz”). Porém, de divertido “Inimigos Públicos” não tem nada. O público é apresentado a inúmeras cenas de ação e tiroteio, em que o som alto dos tiros é explorado à exaustão por Mann, talvez aí um dos erros do diretor. Essas cenas chamam atenção pelo lado “explosivo” e não pela dinâmica em si dos participantes. É uma falha que também acompanha o fato de que muitos diálogos são unidimensionais e previsíveis, chegando até a beirar os livros de frases famosas. Mas não é dessa forma que Mann trabalha em algumas cenas belíssimas e que valem o registro: o suspense quando Dillinger dirige um carro nas ruas da cidade e passa em frente a policiais, outro suspense (irônico, diga-se de passagem) quando o próprio vai em carne e osso à delegacia e não é reconhecido e a cena final, um primor técnico e um roteiro arrasador ao colocar Depp dividindo a tela com Clark Gable numa dobradinha “virtual” e perfeita para o desfecho do filme.

Mesmo que irregular em certos momentos, “Inimigos Públicos” segue um caminho instigante até o fim, recriando um universo real e interessante ao constatar, por exemplo, que bandidos transitavam facilmente entre a high society sem que pudessem ser reconhecidos. Sinal dos tempos!

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.