Crítica de Filme – Brüno (2009)

nota08

direção: Larry Charles
elenco: Sacha Baron Cohen, Gustaf Hammarsten
gênero: comédia
ano: 2009

Depois do sucesso estrondoso de “Borat” (2006), o ator Sacha Baron Cohen volta com a comédia “Bruno” mais ácido ainda, com toques de humor negro que chocaram muitos puritanos ao redor do mundo. O mais importante de tudo é que o filme toca em muitas feridas da cultura americana, principalmente o homossexualismo, ponto principal da comédia.
O filme mistura realidade e ficção em torno do personagem Brüno, vivido por Cohen, que sai da sua terra natal Áustria para tentar ser famoso na terra das estrelas, em Los Angeles. Lá, o ex-apresentador de televisão vai tentar de tudo para aparecer nas capas de revistas, mas muita confusão o espera.

Lendo assim a sinopse, tudo parece meio simplório, mas o que o espectador tem de entender ao entrar no cinema é que o estilo de Cohen é único – e isso ninguém pode negar. A grande questão é: com sua maneira própria de fazer cinema, misturando ficção, documentário e linguagem televisiva, o ator/produtor causa polêmica e deixa no ar a idéia do “ame-o ou deixe-o”. Ainda mais quando o tema abordado no filme é um tabu ainda hoje na sociedade, o homossexualismo. E Cohen, na pele de Brüno, vai longe em suas investigações, travestindo um tema real e sério com uma roupagem escrachada, bem-humorada e leve ao mesmo tempo.

O estilo é o mesmo empregado em “Borat”, ou seja, a comédia é baseada em mal entendidos e situações aparentemente sem saída para o ator, que consegue inúmeras vezes improvisar de maneira brilhante. Claro, fica difícil saber em qual momento o filme está mostrando uma situação real e em qual momento estamos diante de uma encenação, mas tudo isso também ajuda a engrandecer a qualidade de Cohen como comediante. Li um crítico dizer que há, pelo menos, 1 piada por minuto no filme, mas eu acredito que tenha mais – talvez um número impressionante, já que fazer rir é muito mais difícil que fazer chorar. E rir é com Brüno, um fashionista que mistura sua língua natal à americana e sempre se mete em confusões aparentemente impossíveis de se sair, assim como aconteceu em “Borat”.

Dessa vez, Cohen mira sua artilharia para dois pontos básicos: a luta cega para se tornar celebridade e o preconceito contra gays. A inteligência do roteiro está na junção dos temas em quase todas as piadas, criando um mash up temático que se confunde a todo tempo. É assim quando Brüno contrata um agente para lhe arranjar emprego em filmes, quando tenta produzir um programa sobre celebridades (com uma cena impagável do “pênis giratório” que faz gente sair da sala) etc. As piadas de humor negro (seria esse termo um preconceito?) permeiam parte do filme, com Brüno citando insistentemente judeus, palestinos, cristãos, negros e o holocausto. O que dizer da troca do bebê por um iPod, não o comum, mas um de última geração do u2? E a cena impagável do programa de televisão em Dallas com uma platéia majoritariamente negra, em que Brüno se sai de maneira brilhante ao brincar com o preconceito contra negros? Não há como ignorar também a tentativa, em vão, do personagem se tornar heterossexual, no momento que somos apresentados à um pastor reprovável que tenta “curá-lo” do “mal” que é ser gay.

Com essas piadas, “Brüno” mexe num tema que já vem sendo bastante explorado pela indústria cultural nos últimos anos. Basicamente, se formos analisar a fundo, o filme (e também “Borat”) é todo calcado no povo americano e seus preconceitos, uma América que pode até estar se renovando, mas que ainda mantém na discriminação um traço forte de sua personalidade coletiva.

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.