Crítica de Filme – Bastardos Inglórios (2009)

nota08

direção: Quentin Tarantino
elenco: Brad Pitt, Mélaine Laurent, Cristoph Walts, Eli Roth
país: EUA/Alemanha
gênero: drama/guerra
ano: 2009
título original: Inglorious Basterds

Assistir a um filme de Quentin Tarantino é apreciar a capacidade técnica que o diretor exerce sobre sua obra, um domínio total da narrativa. Em “Bastardos Inglórios” ele não decepciona nesse quesito, vai além e cria um roteiro intricado e com cenas memoráveis de suspense e um jogo de tensão que poucas vezes ele já fez.

“Bastardos Inglórios” conta a história de um grupo do exército americano que tem o único objetivo matar nazistas – sempre de forma cruel. Eles desenvolvem um plano para matar Hitler e seus generais numa grande noite de estréia de cinema, ao passo que uma judia sobrevivente de um massacre faz o mesmo.

Alguns elementos clássicos de um longa de Tarantino estão presentes aqui também. É curioso perceber que normalmente lembramos muito bem de vários personagens de seus filmes, mas nos recordamos e nos admiramos ainda mais é com as cenas e a ação dramática que eles realizam. A força está no “como” e não no “quem”, é por isso que atores famosos pouco importam numa obra de Tarantino. Em “Bastardos Inglórios” é a mesma coisa: Brad Pitt, como o tenente Aldo Raine, é apenas mais um em meio a tantos bons personagens e as cenas em que ele participa é que o tornam grandioso, e não ele em si. É um mérito e tanto do diretor-Tarantino, claro, aliado a um roteiro que consegue conjugar agilidade com cenas claudicantes do ponto de vista do suspense.

Nesse sentido, três momentos se destacam – curiosamente uma no início, uma no meio e a outra no final. A primeira é a cena de abertura, um momento grandioso do roteirista-Tarantino ao criar um diálogo provocante e incendiário, que está prestes a explodir a qualquer momento – só não sabemos em qual. Ele acerta, por exemplo, no momento exato de mostrar que existem pessoas escondidas na casa, demonstrando que ele aprendeu muito bem com o mestre Hitchcock. O diálogo é sempre cheio de ironias e muito bem pontuado e editado, assim como um outro momento de destaque, a cena da taverna, em que os Bastardos se infiltram em meio a alemães beberrões. A resolução final da cena é algo esplendoroso – rápida, intensa e provocante. Quando tudo termina a gente sabe, viu tudo, mas fica perdido e querendo ver tudo de novo. Como falei aqui num outro post, o grand finale de Tarantino é sempre espetacular, grandioso e apoteótico – mesmo quando termina abruptamente, como em “Prova de Morte”. Aqui não é diferente e qualquer coisa que eu fale pode estragar o momento final e como o conflito se resolve.

No roteiro, a história tem certa dificuldade em se amarrar em determinados momentos. Temos os Bastardos em sua missão obstinada e a história paralela da bela judia Soshana (Mélaine Laurent), que sofreu na pele os horrores da guerra e que luta pela vingança (olha o tema presente aqui de novo…). No meio disso tudo, tem os nazistas, sempre tratados pelo roteiro como obtusos generais, com certa inteligência, mas propensos a decisões equivocadas. O único que destoa é Hans Landa, um sagaz perseguidor de judeus e sempre um passo à frente de suas vítimas, interpretado com maestria por Cristoph Waltz. As cenas em que ele está presente chamam atenção, paradoxalmente ao que falei acima, por ele mesmo, pela capacidade de internalizar o personagem e mostrar ao espectador que, sim, é possível que um cara daquele tenha realmente existido. O toque real do longa, no entanto, reside apenas no pano de fundo do nazismo e de alguns de seus nomes históricos, porque a condução da história e sua conclusão são completamente ficcionais.

Talvez um dos pontos fracos do filme seja o próprio nome e a propagada feita em cima deles, isto é, o filme não é sobre os Bastardos Inglórios, e sim sobre o sentimento de vingança de grupos distintos participantes da guerra. A engrenagem da história não se limita a nenhum dos dois, tendo seu tempo bem dividido entre eles – mais uma vez Tarantino usa a divisão por capítulos. Os Bastardos, no entanto, dão um tom sarcástico ao longa que, por si só, já traz um tema extremamente delicado. As cenas em que Aldo Raine e companhia matam nazistas e conspiram contra eles são excelentes, bem colocadas e distribuídas pelo filme. Tarantino só peca em algumas outras cenas desnecessárias, que só alongam a história e não contribuem para nada.

Apesar disso, o diretor enche a mão e joga alto ao apostar na paixão pela sétima arte. O cinema é tratado aqui como a arte intocável, pois é apreciada mesmo quando realizada por seres humanos detestáveis. A fruição do cinema como uma arte pura e simples é o primordial, e talvez essa seja uma lição importantíssima que ele queira passar para os espectadores. Não é à toa que ele cita vários diretores e atores durante o filme e conduz o roteiro para o desfecho que tem o cinema como ponto chave de conclusão, acrescido de uma trilha belíssima de David Bowie perfeitamente encaixada no desfecho. “Bastardos Inglórios” talvez seja o grito de sobriedade e admiração de Tarantino pelo cinema. Um belo grito.

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.