Crítica de Filme – A Estrada (2009)

nota07

direção: John Hillcoat
elenco: Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee, Charlize Terron
país: Inglaterra
gênero: drama/ficção científica
ano: 2009
título original: The Road

Enquantoeu lia “A Estrada” (Cormac McCarthy, que também escreveu “Onde os Fracos Não Têm Vez”), era impossível não imaginar um filme para aquela história sombria e sem esperança. Claro, comecei a ler depois de saber da existência do longa, mas uma coisa era certa: a dificuldade que seria colocar na tela a história de um pai e um filho em meio ao mundo devastado.
“A Estrada”, o filme, aborda a relação entre o Pai (Viggo Mortensen) e o Filho (Kodi Smit-McPhee) na busca por algo que valha a pena viver, já que vivem vagando por um mundo devastado por incêndios e desastres desconhecidos.
Não há como eu escrever essa crítica sem comparar com o livro. Li primeiro, depois assisti. Então, no livro, somos apresentados a um mundo devastado, sem esperança, com pessoas moribundas vagando a esmo e muita desgraça. A primeira aproximação que fazemos, óbvia, mas necessária, é do retorno aos tempos primitivos, pois vemos seres humanos em situações degradantes e fazendo a única coisa que lhes resta, que é procurar comida. Só isso. No filme, também vemos isso, só que não tão desalentador como na obra de McCarthy. O autor é implacável, mostra através de frases tudo de ruim que pode acontecer à humanidade. Como se fosse um choque, o leitor é transportado para esse mundo, que curiosamente só vemos através dos olhos do Pai e do Filho (falo assim porque os personagens não têm nome).
A dificuldade de transpor esse cenário é compreensível. O livro fica muito na mente dos dois protagonistas, suas impressões, suas visões particulares e muita, muita falta de esperança. Claro, o filme não poderia ser assim, simplesmente pelo fato de que não se venderia. Alguém realmente quer ir ao cinema para ver o “nada”? Isto é, dois seres rastejantes em rumo ao nada, falando sobre o nada, já que o mundo é um tremendo nada. Só que no livro essa construção narrativa funciona de forma categórica. Pai e filho interagem de forma quase monossilábica, conversam sobre o “futuro” e o passado e só citam o presente quando esse assunto explode em seus olhos: luta, sofrimento, provação, fome e medo. É tudo isso que acompanhamos no livro.
O filme, obviamente, foge um pouco a essa lógica. Só um pouco, já que, tenho que admitir, a história é perfeitamente fiel à McCarthy. Tudo está ali, quase nada mudou. Mas para o cinema precisamos de ação física, digamos assim. Esses momentos são raros, embora o diretor John Hillcoat consiga costurar bem essas situações. Vemos muitas vezes o plano aberto, que é para ter conhecimento real da situação do ambiente. Outro ponto forte é a relação intensa entre o Pai e o Filho, muito bem pontuada pelo diretor.
De qualquer forma, a sensação é de que falta muita coisa no filme. Se no livro nós mergulhamos no drama e na profunda desolação dos personagens, o filme alimenta uma certa esperança até o último segundo de projeção. Tá, McCarthy não é 100% determinista em sua obra, mas tem pouca esperança. Então porque, num mundo hostil, em que é preciso matar primeiro e depois perguntar, os dois ainda caminham em direção ao Sul? É o Sul o local da esperança? Talvez, você terá que ler o livro para entender melhor. Apenas uma dica: preste muita atenção nos diálogos do filme, mesmo sabendo que não são tantos. Preste atenção na construção psicológica que o Pai prepara para o filho e como ela é desconstruída no final – aliás, essa parte é, compreensivelmente, bem mais desenvolvida no livro. Só mostra a extrema competência de McCarthy em desenvolver uma história intensa em suas sutilezas.
amtmello@hotmail.com

Enquanto eu lia “A Estrada” (Cormac McCarthy, que também escreveu “Onde os Fracos Não Têm Vez”), era impossível não imaginar um filme para aquela história sombria e sem esperança. Claro, comecei a ler depois de saber da existência do longa, mas uma coisa era certa: a dificuldade que seria colocar na tela a história de um pai e um filho em meio ao mundo devastado.

“A Estrada”, o filme, aborda a relação entre o Pai (Viggo Mortensen) e o Filho (Kodi Smit-McPhee) na busca por algo que valha a pena viver, já que vivem vagando por um mundo devastado por incêndios e desastres desconhecidos.

Não há como eu escrever essa crítica sem comparar com o livro. Li primeiro, depois assisti. Então, no livro, somos apresentados a um mundo devastado, sem esperança, com pessoas moribundas vagando a esmo e muita desgraça. A primeira aproximação que fazemos, óbvia, mas necessária, é do retorno aos tempos primitivos, pois vemos seres humanos em situações degradantes e fazendo a única coisa que lhes resta, que é procurar comida. Só isso. No filme, também vemos isso, só que não tão desalentador como na obra de McCarthy. O autor é implacável, mostra através de frases tudo de ruim que pode acontecer à humanidade. Como se fosse um choque, o leitor é transportado para esse mundo, que curiosamente só vemos através dos olhos do Pai e do Filho (falo assim porque os personagens não têm nome).

A dificuldade de transpor esse cenário é compreensível. O livro fica muito na mente dos dois protagonistas, suas impressões, suas visões particulares e muita, muita falta de esperança. Claro, o filme não poderia ser assim, simplesmente pelo fato de que não se venderia. Alguém realmente quer ir ao cinema para ver o “nada”? Isto é, dois seres rastejantes em rumo ao nada, falando sobre o nada, já que o mundo é um tremendo nada. Só que no livro essa construção narrativa funciona de forma categórica. Pai e filho interagem de forma quase monossilábica, conversam sobre o “futuro” e o passado e só citam o presente quando esse assunto explode em seus olhos: luta, sofrimento, provação, fome e medo. É tudo isso que acompanhamos no livro.

O filme, obviamente, foge um pouco a essa lógica. Só um pouco, já que, tenho que admitir, a história é perfeitamente fiel à McCarthy. Tudo está ali, quase nada mudou. Mas para o cinema precisamos de ação física, digamos assim. Esses momentos são raros, embora o diretor John Hillcoat consiga costurar bem essas situações. Vemos muitas vezes o plano aberto, que é para ter conhecimento real da situação do ambiente. Outro ponto forte é a relação intensa entre o Pai e o Filho, muito bem pontuada pelo diretor.

De qualquer forma, a sensação é de que falta muita coisa no filme. Se no livro nós mergulhamos no drama e na profunda desolação dos personagens, o filme alimenta uma certa esperança até o último segundo de projeção. Tá, McCarthy não é 100% determinista em sua obra, mas tem pouca esperança. Então porque, num mundo hostil, em que é preciso matar primeiro e depois perguntar, os dois ainda caminham em direção ao Sul? É o Sul o local da esperança? Talvez, você terá que ler o livro para entender melhor. Apenas uma dica: preste muita atenção nos diálogos do filme, mesmo sabendo que não são tantos. Preste atenção na construção psicológica que o Pai prepara para o filho e como ela é desconstruída no final – aliás, essa parte é, compreensivelmente, bem mais desenvolvida no livro. Só mostra a extrema competência de McCarthy em desenvolver uma história intensa em suas sutilezas.

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.