Alguns mundos e uma paixão: a Copa do Mundo no cinema

Em semana de abertura da Copa do Mundo, eu já falei de música. Agora é a vez do cinema. Queria contextualizar os dois temas, mas tentei fugir do óbvio top 10 filmes de futebol ou então falar do comercial espetacular da Nike feito pelo cineasta Alejandro González Iñarritu. Isso é fácil encontrar por aí. Vou tratar apenas de dois filmes que tem a Copa do Mundo como pano de fundo, de países diferentes, em contextos sociais diferentes, mas com propósitos dramáticos semelhantes: “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” (2006) e “O Milagre de Berna” (2003).
“O Ano…” é brasileiro, dirigido pelo competente Cao Hamburger, experiente diretor de longa data da Tv Brasileira. Nesse filme, ele explora a forte relação do garoto Mauro com o futebol e o bairro do Bom Retiro, em São Paulo. O ano era 1970, pouco tempo do AI5 e seus pais tiveram que fugir da repressão da ditadura. O menino tem, então, que se readaptar a novos amigos, novo bairro e novas relações, principalmente numa época de crescimento. Mas seu maior impulsionador é mesmo o futebol e a paixão que ele desenvolve pela bola e tudo à sua volta. Curioso a gente acompanhar Mauro descobrindo a TV a cores, pois aquela foi a primeira Copa que os brasileiros viram ao vivo e à cores, mas nem todos tinham acesso ao aparelho.
Enquanto isso, outro garoto também vê sua realidade mudar com a realização de uma Copa do Mundo. É Matias, um esperto alemão que crê ser o talismã do craque da seleção germânica. Se Mauro passa a viver sem o pai, o alemãozinho enfrenta a mesma situação, já que seu genitor está sumido desde a Segunda Guerra. Aliás, estamos falando do ano de 1954, em que a Alemanha recuperava-se do baque da Guerra e seu time de futebol era apenas mais um em meio a tantos sem muito brilho (inclusive o Brasil). Era o ano de Puskas, o grande astro do futebol mundial da época, mas ele jogava na Hungria. Essa era a seleção do momento, que encantava, que impôs à Inglaterra a primeira derrota em casa de sua história e que chegou a golear o Brasil na Copa. Mas Matias era apaixonado pela Alemanha, de futebol feio, mas que representava muito para si próprio.
Enquanto que no Brasil em 1970 a equipe encantava não só a Mauro, mas a todo o mundo, Matias seguia uma jornada para assistir a final da competição que, vejam vocês, foi disputada pela Alemanha x Hungria. Enquanto que acompanhamos Mauro em um bairro típico de São Paulo num contexto de forte repressão ditatorial, na Alemanha era tempo de retomada de uma nação, mesmo separada entre Oriental e Ocidental. O filme brasileiro explora o lado humano pela via das simples relações do dia a dia, do papo fácil da esquina e travessuras típicas da infância. Já o longa alemão explora o pós-guerra e conseqüências familiares latentes.
Mas, mesmo com essas diferenças aparentes, ambos têm também algumas semelhanças. A principal delas é a paixão do futebol que, no coração de uma criança, tem verdadeiramente o poder mudar o curso de muitas vidas. Mauro e Matias viveram em ocasiões históricas e contextos político-sociais bem distintos, mas trouxeram dentro de si a paixão pelo futebol e seu caráter modificador de trajetórias. O drama dos dois filmes focou em crianças, mas tocaram em situações profundamente adultas, além, claro, de mostrar um lado infantil que ao mesmo tempo é divertido e nostálgico. Filmes pra vida toda.
*Curiosidade: O nome Mauro, protagonista de “O Ano…”, é o mesmo do segundo capitão brasileiro a levantar a Taça de campeão mundial. O zagueiro jogou 30 partidas pela seleção brasileira. Já Matias é o mesmo nome de um grande ídolo do futebol alemão, Matias Sammer, que não foi campeão mundial, mas jogou pela Alemanha Oriental, ainda nos anos 80, e depois integrou a seleção Alemã unificada, a partir de 1990.

Em semana de abertura da Copa do Mundo, eu já falei de música. Agora é a vez do cinema. Queria contextualizar os dois temas, mas tentei fugir do óbvio top 10 filmes de futebol ou então falar do comercial espetacular da Nike feito pelo cineasta Alejandro González Iñarritu. Isso é fácil encontrar por aí. Vou tratar apenas de dois filmes que tem a Copa do Mundo como pano de fundo, de países diferentes, em contextos sociais diferentes, mas com propósitos dramáticos semelhantes: “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” (2006) e “O Milagre de Berna” (2003).

“O Ano…” é brasileiro, dirigido pelo competente Cao Hamburger, experiente diretor de longa data da Tv Brasileira. Nesse filme, ele explora a forte relação do garoto Mauro com o futebol e o bairro do Bom Retiro, em São Paulo. O ano era 1970, pouco tempo do AI5 e seus pais tiveram que fugir da repressão da ditadura. O menino tem, então, que se readaptar a novos amigos, novo bairro e novas relações, principalmente numa época de crescimento. Mas seu maior impulsionador é mesmo o futebol e a paixão que ele desenvolve pela bola e tudo à sua volta. Curioso a gente acompanhar Mauro descobrindo a TV a cores, pois aquela foi a primeira Copa que os brasileiros viram ao vivo e à cores, mas nem todos tinham acesso ao aparelho.

Enquanto isso, outro garoto também vê sua realidade mudar com a realização de uma Copa do Mundo. É Matias, um esperto alemão que crê ser o talismã do craque da seleção germânica. Se Mauro passa a viver sem o pai, o alemãozinho enfrenta a mesma situação, já que seu genitor está sumido desde a Segunda Guerra. Aliás, estamos falando do ano de 1954, em que a Alemanha recuperava-se do baque da Guerra e seu time de futebol era apenas mais um em meio a tantos sem muito brilho (inclusive o Brasil). Era o ano de Puskas, o grande astro do futebol mundial da época, mas ele jogava na Hungria. Essa era a seleção do momento, que encantava, que impôs à Inglaterra a primeira derrota em casa de sua história e que chegou a golear o Brasil na Copa. Mas Matias era apaixonado pela Alemanha, de futebol feio, mas que representava muito para si próprio.

Enquanto que no Brasil em 1970 a equipe encantava não só a Mauro, mas a todo o mundo, Matias seguia uma jornada para assistir a final da competição que, vejam vocês, foi disputada pela Alemanha x Hungria. Enquanto que acompanhamos Mauro em um bairro típico de São Paulo num contexto de forte repressão ditatorial, na Alemanha era tempo de retomada de uma nação, mesmo separada entre Oriental e Ocidental. O filme brasileiro explora o lado humano pela via das simples relações do dia a dia, do papo fácil da esquina e travessuras típicas da infância. Já o longa alemão explora o pós-guerra e conseqüências familiares latentes.

Mas, mesmo com essas diferenças aparentes, ambos têm também algumas semelhanças. A principal delas é a paixão do futebol que, no coração de uma criança, tem verdadeiramente o poder mudar o curso de muitas vidas. Mauro e Matias viveram em ocasiões históricas e contextos político-sociais bem distintos, mas trouxeram dentro de si a paixão pelo futebol e seu caráter modificador de trajetórias. O drama dos dois filmes focou em crianças, mas tocaram em situações profundamente adultas, além, claro, de mostrar um lado infantil que ao mesmo tempo é divertido e nostálgico. Filmes pra vida toda.

*Curiosidade: O nome Mauro, protagonista de “O Ano…”, é o mesmo do segundo capitão brasileiro a levantar a Taça de campeão mundial. O zagueiro jogou 30 partidas pela seleção brasileira. Já Matias é o mesmo nome de um grande ídolo do futebol alemão, Matias Sammer, que não foi campeão mundial, mas jogou pela Alemanha Oriental, ainda nos anos 80, e depois integrou a seleção Alemã unificada, a partir de 1990.

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.