Esse post pode se tornar chato para alguns ou não despertar interesse algum, afinal, nem todos são apaixonados por Lost. Eu sou. Virei um grande aficionado pela série e, confesso, estou muito feliz por ter terminado. E, antes de mais nada, eu achei o final ótimo, sensacional e totalmente de acordo com a série como um todo. E porque feliz pelo fim? Ora, se é pra terminar um dia, que termine em grande estilo.
Lost, na verdade, pode ser dividido em duas partes praticamente iguais. A primeira compreende as 3 primeiras temporadas e a segunda o resto. São duas séries completamente diferentes nesses períodos, muito embora haja forte conexão entre elas – além da óbiva, que são os personagens. A primeira parte é a intensidade da ação, o novo tomando conta da cena. Tudo aquilo saltava aos olhos. O que era um urso polar no meio de uma ilha tropical? Outros? Que outros? Vozes? Que vozes? A condução narrativa “inovadora” trazia os flashbacks e não deixava a peteca da ação cair. Era o contraponto perfeito entre compreensão (passado) e desenrolar (presente). Um não vive sem o outro – o que parece que muitos seriados esquecem, aliás. O entendimento de Lost nessa primeira etapa se deu bastante por essa narrativa entrecortada de passado e presente.
Os segredos não revelados e mistérios iam surgindo a cada novo episódio. Esse foi outro grande trunfo, ou seja, trazer sempre coisa nova (de qualidade) sem que isso se tornasse chato. Fato que só foi possível pelas boas idéias da equipe de criação. Os flashbacks sempre traziam informações precisas sobre os personagens e suas ações, sempre condizentes com seu passado. Assim vimos um Jack determinado, o homem da ciência, impulsivo até a alma, prestes a qualquer momento carregar o mundo nas costas. E tudo era explicado aos poucos no decorrer de pequenas ações e dos flashbacks. Assim foi com todos os principais personagens: Locke, Hurley, Saywer, Kate, Sun, Jin, Michael etc etc.

Essa primeira etapa passou e tínhamos a certeza exata do que estava acontecendo, embora, obviamente, não tivéssemos a noção exata de nada. Tá, parece contraditório, mas não é. Em Lost, quanto mais você descobria (ou tentava), menos você sabia. E tudo ficou ainda mais nebuloso no final da terceira temporada, quando ocorreu aquele petardo, uma bomba jogada com força na mente de todos os apaixonados pela série. Aquele final parecia uma provocação, mas não, era tudo “verdade”. Na minha opinião, nada superou o “we have to GO bak” de Jack para Kate. E o pior é que meses se passaram para nos recuperarmos do choque. No período entre uma temporada e outra, muitas especulações. E aí entra outro grande acerto da série.
Lost é uma experiência. Tá, tudo é experiência, mas aqui o sentido é o de ampliar o simples “assistir”. Ninguém assiste Lost, e sim acompanha. Lost é debater com o amigo, sempre. Não há o Lost solitário. Lost é correr atrás das mais mirabolantes teses sobre a ilha, a fumaça, Jacob, Locke e tudo mais. A experiência coletiva proporcionada é muito maior que o simples episódio, que, vamos combinar, já é bastante coisa. Os fãs foram os maiores “criadores” da série, amplificaram o alcance da série e a colocaram com status de experiência coletiva. Por isso as milhares de comunidades, que, tudo bem, acontece com qualquer seriado de sucesso, mas que no caso de Lost promove muito mais do que joguinhos de “qual personagem você seria?”. É física quântica para leigos, leis da física aparentemente sem sentido, o tal gato de Schrodinger e uma infinidade de teorias. Isso fez com que alguns decretassem o fim da TV como nós conhecemos; “do tubo ao youtube”, vi em alguns lugares.
E aí a segunda fase. Eu denominaria de aprofundamento, contemplação, vivência, teorização. Tem muita coisa nessas três temporadas. Aliás, muito mais coisas que nas anteriores. Essa é a fase mais psicodélica e adulta, assim como os Beatles que tiveram a primeira fase pop (as 3 primeiras temporadas de Lost) e depois se jogaram em músicas mais trabalhadas. Locke ganhou força ao lado de Benjamin, mas sem deixar Jack de lado (esse, pra mim, é o melhor personagem de todos, ao lado de Ben, um pouco atrás. Incrivelmente profundo, cheio de nuances e muito bem interpretado por Mathew Fox). A história de Jacob e seu irmão também foi aparecendo aos poucos e, claro, muita coisa foi sendo desvendada. Os mistérios da ilha ficaram mais complexos e pudemos entender, por exemplo, o que era efetivamente a Iniciativa Dharma para, logo após, percebermos que era “fichinha” perto do que estávamos acompanhando.
No final, todo mundo ficou meio decepcionado. Eu não. E explico. Se a gente for resgatar os episódios, um a um desde a primeira temporada, veremos sempre a dicotomia fé x razão, ciência x sobrenatural. Isso está a priori em Lost. E digo mais: isso é um a priori da condição humana, embora os ateus vão discordar veementemente de mim. No frigi dos ovos, vemos Locke x Jack em quase todo o seriado. Tente relembrar aí quantas vezes eles brigaram, reataram, desbravaram a ilha juntos, brigaram de novo. A representação de Locke é da fé, afinal, vocês se lembram, o cara simplesmente se curou da paralisia ao pousar na ilha. Se isso não é milagre… Desde o primeiro momento em que ele aparece, ele já está jogado em meio a uma fé que nem ele sabe o que é. Mas a gente não sabe disso, mas dá para perceber em várias cenas e, principalmente, no fato dele ter sido o único (quase, teve também Rose, que se curou do câncer) que acreditava no “poder” da ilha e que queria desvendar isso. Não há ciência para aquilo, embora todas as teorias válidas tenham sido discutidas. Jack era o homem da razão, que percorreu toda uma trajetória dentro das 6 temporadas para, enfim, se “entregar” ao imponderável.
O final foi isso. Depois que terminou, devemos encarar os flash-sideways como tal e não tentar encaixá-los em um período de tempo. Digamos que tudo estivesse “suspenso”, uma verdadeira realidade paralela. A realidade era mesmo aquela da ilha, por isso que no final quando aparece todos reunidos já é um terceiro momento, em um outro “plano”. Sei que essa palavra deve provocar ojeriza em muita gente, mas vamos fazer um pouquinho de esforço e ir além da teoria espírita. Os três momentos seriam: a ilha (o real, que estava acontecendo de fato), a vida paralela (ativada pelo eletromagnetismo da ilha, mas que não se configura como real, passado, presente nem futuro; mas também não é imaginário); e o fim, o encontro em que todos já estavam mortos e, portanto, era posterior aos acontecimentos finais do último episódio.
Confuso. É, bem confuso mesmo. Mas sabe de uma coisa? Melhor assim. Muita coisa não foi explicada e, a meu ver, nem deve ser. O seriado em nenhum momento chamou o espectador de burro e deu explicações vazias. O mais legal é você criar seu final, seu caminho próprio a partir de suas experiências, expectativas e frustrações. A base foi dada. E Lost não tem fim.















Só discordo de “todo mundo ficou meio decepcionado”, hehehe, eu também não fiquei… Gostei bastante e achei bem interessante essa sua teoria de primeira e segunda fase. Só repito que me incomodou um pouco eles esquecerem “a ilha” na sexta temporada. De repente ela não era mais um personagem com vontade própria, e sim, um local sagrado com uma luz mística e tudo acontecia pela vontade de um homem que a protegia: Jacob. Mas, acompanhei cada segundo de Lost com muita alegria. E vou continuar lembrando, sempre.
Essa questão do “abandono” da Ilha como personagem realmente existiu. É um ponto a se considerar. Mas, a meu ver, não comprometeu.
Rodrigo, até hoje foi o melhor post sobre o final de Lost que já li este aqui.
Tudo o que você disse e tudo o que Lost representou e significou para você, eu vejo da mesma forma.
As pessoas que não gostaram estão em dois grupos, primeiro aqueles que queriam um final plausível e científico e em segundo lugar o grupo daqueles que queriam as respostas de tudo o que aconteceu nestes 6 anos de mão beijada.
Os produtores e criadores foram verdadeiros gênios em criar uma série “imortal”, sem final após o último capítulo, driblando até mesmo contrapontos que sempre prejudicam as séries como as emissoras que querem lucrar muito e estender a quantas temporadas puder.
No final das contas acredito que Lost serviu a todos os propósitos, gerou lucro, gerou prestígio e agradou boa parte dos fãs. Aos que ficaram chateados com o final, duvido que algum deles diga que chegou até aqui sem ter se divertido ao menos durante a trajetória da série.
Vou parar por aqui pra não fazer um comentário maior que o post, mas só que é difícil falar de Lost em poucas palavras.
[]´s
Concordo com Villaç… ops, com Carreiro em algumas partes. O final foi fantástico, exceto a parte dos espíritos e aquele blá blá blá todo!
O que me deixou frustrado em Lost, como um todo, foi que se você pegar a série toda e assistir de novo, vc não vai ver “pistas” do que estava acontecendo. Sem contar que parece-me que eles optaram para o mais óbvio…
Sem contar diversas respostas que não foram dadas e o papo dos produtores no início “Tudo o que vocês verem em Lost é cientificamente comprovado…”.
O fim foi emocionante. O casal coreano foi responsável pelas cenas mais tristes da série. A morte deles e o que representou para Jack, Sawyer, Kate foi um dos pontos altos da série. Jack, sem dúvida, é o melhor personagem.
Por outro lado, achei os reencontros de Sayid (um personagem que caiu muito nesta termporada) com Shannon e Sawyer com Juliet muito forçados, principalmente do último casal, que merecia uma cena melhor.
Eu gostei muito da série, mas não gostei do final. Achei coerente, mas não foi muito “empolgante” ou “surpreendente” como muitos momentos da série. Mas enfim…