Crítica de Filme – Biutiful (2010)

Alejandro González Iñárritu, elogiado pela triologia da morte que fez ao lado do roteirista Guillermo Arriaga, em seu novo filme resolve ousar apenas na execução, pois mais uma vez sua história gira em torno do mesmo tema. Agora ele é o faz-tudo da obra e pede ajuda “apenas” de Javier Bardem para levar às telas ‘Biutuful’, um petardo sobre desilusão, morte, medos e decepções.
‘Biufiul’ é a história de Uxbal (Javier Bardem), um explorador de mão de obra estrangeira em Barcelona, que trabalha dia e noite para cuidar dos dois filhos e da mulher drogada (Maricel Álvarez).
A começar por onde o filme se passa, Iñárritu vai fundo no que quer nos mostrar. Ele consegue a proeza de transformar Barcelona numa Mumbai piorada, cheia de tipos mafiosos, imigrantes explorados, ruas e becos fétidos. A face oculta de um dos maiores cartões postais do mundo. E se esse era, realmente, o objetivo do diretor, então acertou em cheio. Aliás, mais profundamente, as atitudes do personagem principal refletem o que vemos no cenário. Uxbal é sujo (está feio. Pois é…), tem uma doença incômoda e chata, mora num muquifo e explora chineses como se estivesse jogando videogame num domingo à tarde. Simples, normal, tranqüilo, mas sem que isso seja efetivamente uma coisa que ele gosta de fazer. A vida (Barcelona) o fez assim.
Não há como assistir a ‘Biutiful’ e sair incólume da sala de cinema – o que se torna um ponto positivo e ao mesmo tempo negativo. Positivo porque os espectadores conseguem ser tocados pela história extremamente triste, e negativo porque ninguém quer ficar 2 horas sentados só tomando tapa na cara e chute no estômago. Porque é isso que ‘Biutiful’ é: incômodo, como uma pequena pedra no rim que te arde ao urinar. Mas o filme não é só essa mancha turva, pois nos mostra alguns personagens interessantes. Uxbal, embora sofra calado por ter que explorar desconhecidos, tem amor de sobra para os filhos e, além disso, percorre uma pequena jornada, que o leva a dois pontos bastante intrigantes – é só assistir ao filme para ver.
A morte, que perpassa toda a história, tem visões diferentes para diferentes pessoas. As crianças que nada temem, a mulher drogada e desiludida que prefere se jogar de vez na sua vida suja a tentar uma vida mais digna e Uxbal, claro, o ponto alto de todo o filme. Ele é médium, embora essa sua faceta não seja tão explorada como deveria. Ele encara a morte de longe (mesmo tendo o dom), mas se vê diante de um impasse ao descobrir que tem uma grave doença. Lembram de Paul Rivers, em ’21 Gramas’? Lá ele tenta recuperar a vida após ser salvo por um transplante de coração; em ‘Biutiful’ Uxbal tenta o mesmo, só que diante da iminência da morte. Se Rivers é objetivo e aberto, Uxbal é o contrário, avesso a carinhos e com a sombra do seu pai lhe assombrando – e alguns espíritos também, diga-se de passagem.
Como Iñárritu é o diretor dos detalhes, então é preciso ficar atento a eles, principalmente às duas cenas iniciais. De qualquer forma, muitas vezes o espectador se perde nisso tudo, nesse jogo que soa até aleatório. A cadência não é o forte do longa, faltando mais jogo de cintura ao amarrar tantas pontas de uma mesma história.
É irônico, portanto, que Iñárritu tenha escolhido um adjetivo positivo para dar nome ao seu primeiro filme como roteirista, mas, claro, sem antes dá o toque “sujo” e escrevê-lo de forma equivocada.

nota07

direção: Alejandro González Iñárritu
elenco: Javier Bardem, Maricel Álvarez, Eduard Fernandez
país: Espanha
gênero: drama
ano: 2010

Alejandro González Iñárritu, elogiado pela triologia da morte que fez ao lado do roteirista Guillermo Arriaga, em seu novo filme resolve ousar apenas na execução, pois mais uma vez sua história gira em torno do mesmo tema. Agora ele é o faz-tudo da obra e pede ajuda “apenas” de Javier Bardem para levar às telas ‘Biutuful’, um petardo sobre desilusão, morte, medos e decepções.

‘Biufiul’ é a história de Uxbal (Javier Bardem), um explorador de mão de obra estrangeira em Barcelona, que trabalha dia e noite para cuidar dos dois filhos e da mulher drogada (Maricel Álvarez).

A começar por onde o filme se passa, Iñárritu vai fundo no que quer nos mostrar. Ele consegue a proeza de transformar Barcelona numa Mumbai piorada, cheia de tipos mafiosos, imigrantes explorados, ruas e becos fétidos. A face oculta de um dos maiores cartões postais do mundo. E se esse era, realmente, o objetivo do diretor, então acertou em cheio. Aliás, mais profundamente, as atitudes do personagem principal refletem o que vemos no cenário. Uxbal é sujo (está feio. Pois é…), tem uma doença incômoda e chata, mora num muquifo e explora chineses como se estivesse jogando videogame num domingo à tarde. Simples, normal, tranqüilo, mas sem que isso seja efetivamente uma coisa que ele gosta de fazer. A vida (Barcelona) o fez assim.

Não há como assistir a ‘Biutiful’ e sair incólume da sala de cinema – o que se torna um ponto positivo e ao mesmo tempo negativo. Positivo porque os espectadores conseguem ser tocados pela história extremamente triste, e negativo porque ninguém quer ficar 2 horas sentados só tomando tapa na cara e chute no estômago. Porque é isso que ‘Biutiful’ é: incômodo, como uma pequena pedra no rim que te arde ao urinar. Mas o filme não é só essa mancha turva, pois nos mostra alguns personagens interessantes. Uxbal, embora sofra calado por ter que explorar desconhecidos, tem amor de sobra para os filhos e, além disso, percorre uma pequena jornada, que o leva a dois pontos bastante intrigantes – é só assistir ao filme para ver.

A morte, que perpassa toda a história, tem visões diferentes para diferentes pessoas. As crianças que nada temem, a mulher drogada e desiludida que prefere se jogar de vez na sua vida suja a tentar uma vida mais digna e Uxbal, claro, o ponto alto de todo o filme. Ele é médium, embora essa sua faceta não seja tão explorada como deveria. Ele encara a morte de longe (mesmo tendo o dom), mas se vê diante de um impasse ao descobrir que tem uma grave doença. Lembram de Paul Rivers, em ’21 Gramas’? Lá ele tenta recuperar a vida após ser salvo por um transplante de coração; em ‘Biutiful’ Uxbal tenta o mesmo, só que diante da iminência da morte. Se Rivers é objetivo e aberto, Uxbal é o contrário, avesso a carinhos e com a sombra do seu pai lhe assombrando – e alguns espíritos também, diga-se de passagem.

Como Iñárritu é o diretor dos detalhes, então é preciso ficar atento a eles, principalmente às duas cenas iniciais. De qualquer forma, muitas vezes o espectador se perde nisso tudo, nesse jogo que soa até aleatório. A cadência não é o forte do longa, faltando mais jogo de cintura ao amarrar tantas pontas de uma mesma história.

É irônico, portanto, que Iñárritu tenha escolhido um adjetivo positivo para dar nome ao seu primeiro filme como roteirista, mas, claro, sem antes dar o toque “sujo” e escrevê-lo de forma equivocada.

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.