Resenha de livro – Vida (2010), a biografia de Keith Richards

nota091

escrito por: Keith Richards e James Fox
gênero: biografia
ano: 2010
editoria: Globo

Escrever uma biografia não deve ser lá um dos trabalhos mais fáceis de se executar. Agora imagina escrever a longa história de um ídolo máximo do rock mundial, um cara que influenciou e ainda influencia milhões de pessoas ao redor do globo. Para fazer um livro realmente relevante e definitivo, o próprio biografado convocou um jornalista e amigo para a tarefa e o resultado, claro, não poderia ser diferente de “sensacional” e “delicioso”.
James Fox assume a árdua tarefa de traduzir as memórias de Keith Richards em palavras no livro “Vida”, lançado no final de 2010. Como todos sabem, Keith é o aclamado guitarrista do Rolling Stones, que ainda teve tempo para uma rápida carreira solo e para a banda Xpensive Winos, além, claro, de outras tantas passagens musicais infindáveis. Mais do que isso, Richards se tornou o ícone mor do que é ser um astro de rock, com tudo de bom e ruim que isso possa lhe trazer. Mas quem realmente criou esse “mito”, essa figura de proporções mundiais que freqüenta o inconsciente daqueles que gostam de música? Ninguém melhor do que o próprio Keith.
Vamos ao que se pode chamar de clichê do rockstar: tocar numa banda de rock, pegar o máximo de mulheres possível, usar todo tipo de droga, causar confusão nos quatro cantos do mundo, escrever algumas músicas geniais de rock, ser poser até na hora de dormir, ser adorado por muitos e odiado por tantos outros. Keith inventou essa cartilha, colocou em prática e hoje assiste de camarote seus súditos tentarem o superar. Em “Vida”, além de acompanhar passagens marcantes da vida do imortal guitarrista, somos brindados também com momentos importantes do rock e da criação do entorno pop que o estilo foi tomando para si, como aquela história da criatura se tornando o próprio mestre. É isso que Richards nos ensina.
Mas, antes, é possível conhecer a história de vida do pequeno Keith, nascido no seio da Londres proletária, de família grande, pais bondosos e, obviamente, uma infância conturbada. Nada de confusões, mas sim de decepções que lhe marcaram eternamente – como, por exemplo, a expulsão do coral da escola, por atingir certa idade e estar com a voz “em transição”, e o bullying freqüente. Esses fatos, pelo menos na visão desse humilde escrevente, foram os dois pontos fundamentais na vida de Richards para que ele se tornasse o que ele se tornou. Amargurado pela decepção na infância? Que nada, o cara correu atrás da primeira guitarra, ouviu todos os discos de blues acessíveis naquela época na Inglaterra (década de 50) e praticou guitarra como um adolescente pratica o onanismo. Essas passagens da sua tenra infância, Keith conta com especial carinho e gasta umas boas 100 páginas, o que pode ser um pouco cansativo, mas é revelador e, portanto, fundamental.
Já os melhores pontos do livro são, realmente, do momento em que ele conhece Mick Jagger até meados da década de 70 – época de declínio criativo dos Rolling Stones. Mas nada que comprometa o resultado final. Claro que temos que relevar muitas das coisas que ele conta, afinal, é apenas uma visão da história e o leitor logo percebe o tom irônico de vários fatos e o “ar superior” que o próprio assume em outras passagens. Keith é meio egoísta e boçal, nada fora do normal. E isso ele deixa claro em momentos cruciais de sua história, como quando avalia o desempenho de Mick em cima do palco e o compara com atitudes fora de cena. Ou quando se sente vítima quando Brian Jones, guitarrista co-fundador da banda, despiroca de vez ao saber que Richards havia roubado sua namorada, a groupie casca grossa Anita Pallenberg. Curioso porque anos depois ele se sentiria vítima novamente, dessa vez porque o ladrão de namoradas da vez foi Jagger, roubando-lhe justamente Anita. Confuso? Você só verá algo pior quando chegar às páginas dedicadas à gravação do clássico absoluto “Exile On Main Street”, num delicioso verão francês. Boas e novas informações e, claro, muita curiosidade.
Esse aspecto é bastante explorado, já que apesar das décadas de drogas na cabeça, Richards parece ser dono de uma memória impressionante. Lembra de detalhes incríveis e não poupa ninguém. Jagger é um dos principais alvos, aquele típico caso de amor e ódio em iguais proporções. Até Lennon não escapa, chamado de frouxo (em tom levemente brincalhão) por não agüentar uma road trip insana de três dias seguidos de heroína e barbitúricos. Alguém agüentaria? A fase inicial da banda e o sucesso em paralelo aos Beatles também garantem boas risadas, boas histórias e revelações interessantes. Por exemplo, Keith diz que era comum ele e Lennon se falarem por telefone e combinarem quando exatamente iam lançar seus singles, afinal, era necessário dar um nó na imprensa e não concorrer entre si.
O Brasil também tem páginas dedicadas exclusivamente a ele. A primeira passagem de Richards foi no Rio, viagem feita de navio. Depois vieram outras viagens, como a que rendeu duas composições, “Honk Tonk Woman” e “Country Honk”. Aqui cabe uma observação de fã. Em outras biografias e sites da internet, essas duas músicas são creditadas como feitas pela dupla Jagger & Richards na cidade de Matão, interior de São Paulo. Mas em “Vida”, Keith afirma que, na verdade, elas foram criadas numa fazenda isolada do Mato Grosso do Sul. Confusão do guitarrista? Bem capaz, já que Matão e Mato Grosso do Sul têm palavras em comum, mas nunca se sabe.
Além disso, a já conhecida passagem da dupla pela Bahia também é tratada, com especial carinho à aldeia hippie de Arembepe, que na época era a maior e mais famosa do Brasil. Já a visita dos dois à lavagem do Bonfim, em Salvador, não é abordada – mas em outras biografias, sim. Exemplo disso é esse livro aqui, que conta mais sobre episódios dos Stones no Brasil.
As drogas não têm um capítulo à parte, já que elas são parte constitutiva de Richards desde o final de sua adolescência. No final da década de 60 a situação piorou, com a descoberta da heroína, e diversas páginas são gastas para descrever o mal que ela lhe causou. Barbitúricos, cocaína, maconha, álcool e tantas outras substâncias psicotrópicas são tratadas de forma natural pelo guitarrista que chega até a recomendar para os jovens: “não usem heroína, é muito pesado. O resto é aceitável”.
Não há como negar, depois disso tudo resenhado aqui, a importância do personagem Keith Richards para o rock mundial. Dá para perceber também o lado mais “humano” por trás dessa grossa casca, o lado família, o carinho dele com os avós, o afeto que dispensa a amigos menos famosos (o saxofonista Bob Keys é tratado como um irmão) e tantos outros momentos. Richards prova de que é feito um rockstar, mas também do que é preciso para sustentá-lo.

Escrever uma biografia não deve ser lá um dos trabalhos mais fáceis de se executar. Agora imagina escrever a longa história de um ídolo máximo do rock mundial, um cara que influenciou e ainda influencia milhões de pessoas ao redor do globo. Para fazer um livro realmente relevante e definitivo, o próprio biografado convocou um jornalista e amigo para a tarefa e o resultado, claro, não poderia ser diferente de “sensacional” e “delicioso”.

James Fox assume a árdua tarefa de traduzir as memórias de Keith Richards em palavras no livro “Vida”, lançado no final de 2010. Como todos sabem, Keith é o aclamado guitarrista do Rolling Stones, que ainda teve tempo para uma rápida carreira solo e para a banda Xpensive Winos, além, claro, de outras tantas passagens musicais infindáveis. Mais do que isso, Richards se tornou o ícone mor do que é ser um astro de rock, com tudo de bom e ruim que isso possa lhe trazer. Mas quem realmente criou esse “mito”, essa figura de proporções mundiais que freqüenta o inconsciente daqueles que gostam de música? Ninguém melhor do que o próprio Keith.

Vamos ao que se pode chamar de clichê do rockstar: tocar numa banda de rock, pegar o máximo de mulheres possível, usar todo tipo de droga, causar confusão nos quatro cantos do mundo, escrever algumas músicas geniais de rock, ser poser até na hora de dormir, ser adorado por muitos e odiado por tantos outros. Keith inventou essa cartilha, colocou em prática e hoje assiste de camarote seus súditos tentarem o superar. Em “Vida”, além de acompanhar passagens marcantes da vida do imortal guitarrista, somos brindados também com momentos importantes do rock e da criação do entorno pop que o estilo foi tomando para si, como aquela história da criatura se tornando o próprio mestre. É isso que Richards nos ensina.

A infância e os anos de ouro – Mas, antes, é possível conhecer a história de vida do pequeno Keith, nascido no seio da Londres proletária, de família grande, pais bondosos e, obviamente, uma infância conturbada. Nada de confusões, mas sim de decepções que lhe marcaram eternamente – como, por exemplo, a expulsão do coral da escola, por atingir certa idade e estar com a voz “em transição”, e o bullying freqüente. Esses fatos, pelo menos na visão desse humilde escrevente, foram os dois pontos fundamentais na vida de Richards para que ele se tornasse o que ele se tornou. Amargurado pela decepção na infância? Que nada, o cara correu atrás da primeira guitarra, ouviu todos os discos de blues acessíveis naquela época na Inglaterra (década de 50) e praticou guitarra como um adolescente pratica o onanismo. Essas passagens da sua tenra infância, Keith conta com especial carinho e gasta umas boas 100 páginas, o que pode ser um pouco cansativo, mas é revelador e, portanto, fundamental.

Já os melhores pontos do livro são, realmente, do momento em que ele conhece Mick Jagger até meados da década de 70 – época de declínio criativo dos Rolling Stones. Mas nada que comprometa o resultado final. Claro que temos que relevar muitas das coisas que ele conta, afinal, é apenas uma visão da história e o leitor logo percebe o tom irônico de vários fatos e o “ar superior” que o próprio assume em outras passagens. Keith é meio egoísta e boçal, nada fora do normal. E isso ele deixa claro em momentos cruciais de sua história, como quando avalia o desempenho de Mick em cima do palco e o compara com atitudes fora de cena. Ou quando se sente vítima quando Brian Jones, guitarrista co-fundador da banda, despiroca de vez ao saber que Richards havia roubado sua namorada, a groupie casca grossa Anita Pallenberg. Curioso porque anos depois ele se sentiria vítima novamente, dessa vez porque o ladrão de namoradas da vez foi Jagger, roubando-lhe justamente Anita. Confuso? Você só verá algo pior quando chegar às páginas dedicadas à gravação do clássico absoluto “Exile On Main Street”, num delicioso verão francês. Boas e novas informações e, claro, muita curiosidade.

Esse aspecto é bastante explorado, já que apesar das décadas de drogas na cabeça, Richards parece ser dono de uma memória impressionante. Lembra de detalhes incríveis e não poupa ninguém. Jagger é um dos principais alvos, aquele típico caso de amor e ódio em iguais proporções. Até Lennon não escapa, chamado de frouxo (em tom levemente brincalhão) por não agüentar uma road trip insana de três dias seguidos de heroína e barbitúricos. Alguém agüentaria? A fase inicial da banda e o sucesso em paralelo aos Beatles também garantem boas risadas, boas histórias e revelações interessantes. Por exemplo, Keith diz que era comum ele e Lennon se falarem por telefone e combinarem quando exatamente iam lançar seus singles, afinal, era necessário dar um nó na imprensa e não concorrer entre si.

O caso com o Brasil – O Brasil também tem páginas dedicadas exclusivamente a ele. A primeira passagem de Richards foi no Rio, viagem feita de navio. Depois vieram outras viagens, como a que rendeu duas composições, “Honky Tonk Woman” e “Country Honk”. Aqui cabe uma observação de fã. Em outras biografias e sites da internet, essas duas músicas são creditadas como feitas pela dupla Jagger & Richards na cidade de Matão, interior de São Paulo. Mas em “Vida”, Keith afirma que, na verdade, elas foram criadas numa fazenda isolada do Mato Grosso do Sul. Confusão do guitarrista? Bem capaz, já que Matão e Mato Grosso do Sul têm palavras em comum, mas nunca se sabe.

Além disso, a já conhecida passagem da dupla pela Bahia também é tratada, com especial carinho à aldeia hippie de Arembepe, que na época era a maior e mais famosa do Brasil. Já a visita dos dois à lavagem do Bonfim, em Salvador, não é abordada – mas em outras biografias, sim. Exemplo disso é esse livro aqui, que conta mais sobre episódios dos Stones no Brasil.

As drogas não têm um capítulo à parte, já que elas são parte constitutiva de Richards desde o final de sua adolescência. No final da década de 60 a situação piorou, com a descoberta da heroína, e diversas páginas são gastas para descrever o mal que ela lhe causou. Barbitúricos, cocaína, maconha, álcool e tantas outras substâncias psicotrópicas são tratadas de forma natural pelo guitarrista que chega até a recomendar para os jovens: “não usem heroína, é muito pesado. O resto é aceitável”.

Não há como negar, depois disso tudo resenhado aqui, a importância do personagem Keith Richards para o rock mundial. Dá para perceber também o lado mais “humano” por trás dessa grossa casca, o lado família, o carinho dele com os avós, o afeto que dispensa a amigos menos famosos (o saxofonista Bob Keys é tratado como um irmão) e tantos outros momentos. Richards prova de que é feito um rockstar, mas também do que é preciso para sustentá-lo.

.

Você também pode se interessar por:

About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.