
![]()
direção: Cecília Amado
elenco: Jean Luis Amorim, Ana Graciela, Robério Lima, Jordan Mateus, Israel Gouveia
país: Brasil
gênero: drama
ano: 2011
Quando se fala em Jorge Amado, é comum associá-lo a obras novelísticas, como “Grabriela, Cravo e Canela” e “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, mas é pouco usual a citação a obras carregadas de valor social como “Capitães da Areia”, justamente a adaptação que chega aos cinemas comandada pela neta do escritor, Cecília Amado.
O filme conta a história de um grupo de meninos de rua de Salvador, os Capitães da Areia, que vivem a liberdade das ruas, as agruras do relento e sonham com um futuro melhor.
É interessante que essa adaptação tenham sido iniciativa de um membro da família do eterno escritor, pois acreditava-se que isso traria o máximo de fidelidade possível à obra original. Aliás, têm obras artísticas que deveriam ser intocáveis, dado o teor de genialidade e importância para sua época. Esse é o caso de Capitães da Areia. Cecília Amado correu um grande risco e eu diria que ele se saiu muito bem pela extrema fidelidade à trama em si, mas jogou no lixo o ponto mais importante da obra de Jorge. Não, não é chatice de crítico ou fã da obra que acha que é ruim toda e qualquer adaptação. A verdade é que têm coisas que são intocáveis e precisam ser levadas à sério.
Na orelha da edição que tenho em casa (1997), da editora Record, há a seguinte frase: “Publicado em 1937, pouco depois de implantado o Estado Novo, o livro teve a primeira edição apreendida e exemplares queimados em praça pública de Salvador por autoridades da ditadura”. O motivo óbvio está nas entrelinhas de todo o livro – e explícito em diversas passagens: comunismo. Por trás das travessuras de Pedro Bala, Gato, Professor, Sem-Pernas e tantos outros, está a ode ao comunismo, ao socialismo, às greves, à divisão do trabalho igualitária e diversas bandeiras comunistas. Não há como deixar isso de fora, pois Jorge escreveu seu livro sob essa égide, esse sentimento – assim como escreveu outra belíssima obra, Jubiabá, que detém os mesmos propósitos. Cecília Amado deixa tudo isso de fora.
Todos os cenários da obra são aproximações dessas questões. O trapiche comandado por Pedro Bala (Jean Luis Amorim) é o mundo ideal pensado por Jorge, com um chefe, é verdade, mas com as decisões tomadas em conjunto. Há uma forte carga religiosa (óbvio, estamos na Bahia), mas há personagem, Sem-Pernas, que questiona todas as religiões. A prisão de Bala, o sofrimento dele na cadeia e seu posterior trabalho na labuta da cana é um indício que salta aos olhos no livro pela crítica ao capitalismo e tratado no filme apenas como uma passagem com importância reduzida. Um dos pontos principais, então, Cecília nem chega perto: a relação de Pedro com as greves e o sonho de ser como o pai, grevista que lutou pelo povo e foi assassinado pela polícia. Esse é um pano de fundo que está por todo o livro, mas que o filme deixa de lado. Bala queria ser igual ao pai e tudo que acontece na história o vai levando para seu destino inexorável.
Cecília concentra todas suas atenções na dinâmica do grupo, nas relações cotidianas, religião e no amor. Isso tudo está no livro e ela conseguiu se sair bem na representação dos personagens – obviamente, levando em conta o pouco espaço para isso. Todos os capitães principais estão lá, todas as histórias paralelas também. É tudo bem costurado, engraçado em alguns momentos, tenso em outros. Faz um bom retrato do arco dramático apresentado por Jorge Amado, inclusive utilizando Dora (Ana Graciela) na dosagem correta. O elenco mirim, formado por não atores, ajuda na maioria das vezes, mas quando a cena exige muito o momento se perde um pouco. Normal.
Como obra fílmica e de entretenimento, Capitães da Areia funciona perfeitamente. Mas falta algo ali. O toque de genialidade de Jorge Amado, que traduziu em palavras tão bem o espírito da Bahia, longe de estereótipos bestas, mas sempre ao lado da essência da Bahia. Dessas pessoas que parecem caricaturas, mas que basta uma volta no Pelourinho ou na Cidade Baixa para encontrá-los aos montes. Mas, como disse anteriormente, faltou o tempero final, o da crítica social que é inevitável nessa obra do mestre.
.













Estou pensando ainda se vou assistir.
Rodrigo, gostei muito do texto. Me esclareceu alguns pontos que não tinha percebido no filme (não li a obra original).
Pois é, Rodrigo, ela própria fez um mea culpa dizendo que o filme é mais humano e menos político como o avê que ela conheceu. De fato, o próprio Jorge Amado jogou fora essa sua veia comunista com o tempo, finalizando a vida ao lado do cabeça branca, ACM. Capitães da Areia foi mutilada nesse ponto, e tem alguns outros problemas, até pela dificuldade de adaptar uma obra que tem várias histórias dentro de uma. No geral, é menos do que poderia ter sido, mas ainda assim, traz algo do livro que lemos.
Amanda,
É verdade, jorge se aproximou de ACM no final da vida. Lamentável. E eu não sabia do mea culpa da diretora. Bem, não muda nada, mas pelo menos ela reconhece o erro.
“Não, não é chatice de crítico ou fã da obra que acha que é ruim toda e qualquer adaptação.”. Tem certeza? Acho que, no mundo atual, levantar esta questão seria muito difícil. Seria muita coisa para colocar no filme… se fosse um seriado, beleza, daria para explorar. Mas em um filme, muito complicado.
E o erotismo presente na obra, foi comprometido? Pela sua resenha, acho que vou esperar chegar na TV paga…
Gostaria de expressar minha indignação a respeito do filme Capitães da Areia. Colocaram crianças para fazer cenas prá lá de picantes. Assisti ao filme numa sala gigantesca, onde só havia mais 6 pessoas. Depois do que vi, espero que continue assim!!!
Assisti o filme hj!Sessao das13h, cinema repleto. A fotografia está impecavel, as atuações são irregulares , mas nada comparado ao terrivel elenco de Malhação!
Apesar de nunca ter lido a obra, porém já havia escutado em uma apresentação de escola e me recordava de tudo antes de assistir, também senti falta de alguma coisa no filme, ah já sei, de sentimento!! Pois é, é isso mesmo, o que me passou perto do que citei anteriormente foi a trilha sonora de carlinhos brown, impecável. O espaço a ser usado era pequeno, mas o que torna o filme rico nem sempre é a troca de lugares e sim a exposição dos sonhos dos personagens que ficaram dispersos, o personagem que me passou realmente isso foi o sem pernas, gostei muito da forma em que atuou. Não pode ficar de fora a crítica dos protagonistas: Bala – presença marcante, mas apresentou pouco domínio das atenções do público que ficaram mais voltadas para o professor, porque expôs os seus sonhos e opiniões (primeiro que a culpa não é do ator que interpretou Bala, porque os seus sonhos foram cortados na adaptação para o filme, e não existe um líder sem um ideal para lutar e segundo sua expressão facial só me passava raiva, nem quando se apaixonou por Dora não relaxou); Dora – sua atuação foi melhor do que de Bala, pela segurança que passava em contrapartida com um roteiro pequeno.
Pablinho cada dia melhor nas críticas! Congrats! Faltou amarrar o filme com essas questões sim, em alguns momentos parece disperso…Gostei de ver, mesmo que timidamente, Salvador daquela época. Corrige lá em cima, tá “Grabiela”.
Jorge se aproxima de ACM vendo ACM transformar um estado que vivia de cacau, algo que Jorge vivenciou como ninguém no sul da Bahia, em um estado agro-industrial complementado por um turismo fortíssimo! Jorge estava certíssimo e o filme, ah, o filme, é estereotipado, ruim, mecânico e só a fotografia fantástica e alguns dos atores amadores se salvam.
eu gostei muitooo….
eu li o livro e assisti o filme foi muito emocionante ler o livro por que quanto mais eu lia mkais eu ficava curiosa para saber oq esta pela vrente
Para mim essa é a melhor obra de todos os tempos, me refiro ao livro, o original. Cada palavra lida me trazia uma emoção diferente, a figura do Pedro Bala nos traz uma mesclagem de sentimentos, é incrível a forma como Jorge Amado nos prende ao livro. Mas comentando sobre o filme, não assisti, porém, uma coisa que muito me incomodou foi a questão de todos os personagens serem negros ou mulatos. Isso não é fiel a obra, até porque Pedro Bala é descrito como branco dos cabelos louros e uma cicatriz profunda. Para mim e para muitos, tenho certeza, isso deixa a entender que somente negros passam por situações como essa, o que não é verdade.
O filme, deixou a desejar e não foi pouco, foi muito! Não falo de produção audio visual que por sinal é muito boa, está muito distante o livro do filme, existem sim obras em que o filme é bem próximo ao livro e este não é um exemplo que podemos ver neste! Talvez se existisse um narrador durante o filme ou estender o tempo de filme seria muito melhor.