Versão brasileira Hebert Richers: uma defesa dos filmes dublados

'A Lagoa Azul', um clássico da dublagem brasileira

O debate sobre a dublagem no Brasil se acirrou ainda no ano passado, quando jornalistas e público perceberam o que estúdios já vinham fazendo há certo tempo: aumentando o número de filmes dublados nas salas de cinema. A questão coloca em dois lados opostos os críticos e jornalistas, que acham a dublagem um descalabro e uma apunhalada na obra original imaculada, e o novo público do cinema, que prefere filmes dublados.

Com a ascensão de milhões de pessoas à classe média brasileira, a demanda pela dublagem aumentou consideravelmente, inclusive na TV a cabo. Se os estúdios de cinema estão investindo mais em dublagem e privilegiando as cópias dessa natureza em muitos filmes, o mesmo está acontecendo na Sony, AXN, Fox e outra infinidade de canais pagos. É a tendência mercadológica, não há como lutar contra. Ou você acha que a empresa vai ficar preocupada com seu gosto pessoal? A briga e indignação devem ser para que os estúdios e canais invistam em dubladores decentes e eficientes. Levantar a bandeira do original em inglês com legenda, nesse caso brasileiro, é um atestado de elitismo, como se todos nós fôssemos obrigados a ter a habilidade de ler legenda e prestar atenção na cena ao mesmo tempo. Para os mais ricos é muito mais fácil, afinal, sabem inglês e é comum ver gente quase sem ler legenda, recorrendo ao recurso apenas quando há dúvida. Eu faço isso em muitos casos e conheço um caminhão de gente igual. Mas exigir que todos façam isso em nome da obra imaculada original?

Fico imaginando os profissionais sérios da dublagem; como eles se sentem? Pilantra e trabalho mal feito existe em qualquer profissão, inclusive na dublagem. Basta conhecer um pouco do mundo da dublagem e perceber que o ofício é sério e procura realizar o melhor trabalho possível – e realiza. Indico o documentário “Eu conheço essa voz” (postado logo acima), que me foi recomendado pela amiga blogueira Amanda, do Cine Pipoca Cult. É só você puxar na memória personagens clássicos que ficaram imortalizados pelo ótimo trabalho de dublagem. O debate, aliás, é parecido com obras literárias. É melhor ler Shakespeare em inglês ou traduzido ao português? Óbvio que em inglês, mas quem tem essa capacidade são poucos. Por isso a tradução é bem vinda.

Para organizar melhor as ideias, os argumentos em favor da dublagem de filmes:

  • dizem que altera a obra original. Isso é bem relativo. Responda-me qual é o filme original e imaculado: a versão que vai para os cinemas (Senhor dos Anéis, 3h de projeção) ou a que está no DVD (Senhor dos Anéis, 3h e MEIA de projeção)? São duas formas de ver e fruir a obra cinematográfica. E a dublagem entra nessa conta.
  • a tal fidelidade da obra original vai pelo ralo se você assistir ao filme numa sala de cinema capenga, sem som dolby 5.1 e o diabo a quatro. Pior: o que dizer da minha velha televisão de tubo 29”? Também não serve para o sagrado ato de assistir filmes?
  • não nos esqueçamos que a dublagem é um recurso chancelado pelos detentores dos direitos autorais da obra. Ou seja, dublar filme faz parte do trabalho de finalização do mesmo. Quem executa a dublagem é uma empresa terceirizada, mas contratada pelo estúdio. Só para ficar claro: dublar filmes é um modo oficial de entregar a obra cinematográfica ao público, portanto, a alteração da voz é prevista e incentivada.
  • Filmes dublados são comuns em países da Europa. Isso por si só não garante nada, mas acompanhe meu raciocínio. Você consegue imaginar que tanta gente é enganada e assiste a filmes de péssima qualidade só porque são dublados?
  • se a dublagem for bem feita você se acostuma e logo logo nem perceberá que está ouvindo os atores falando em português.
  • por fim, quem gosta de cinema assiste filme de qualquer jeito. O amor pela sétima arte fala por si só.

O que eu prefiro? Legendado, mas se não for possível eu deixo a frescura de lado e encaro a dublagem numa boa.

P.S.: não acho condenável alguém odiar a dublagem e só assistir a filmes legendados. o ‘x’ da questão é levantar bandeira contra a dublagem e fazer campanha contra este recurso. Isto é condenável.

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.