Crítica de Filme – Hasta La Vista

direção: Geoffrey Enthoven
elenco: Gilles de Schryver, Robrecht Vanden Thoren, Tom Audenaert, Isabelle de Hertogh
país: Bélgica
gênero: comédia/drama
ano: 2011

Qual jovem não sonhou ou sonha em viajar livremente com os amigos em busca de aventuras e, principalmente, sexo? Pois esse é o argumento de “Hasta La Vista”, mas levando em consideração que os protagonistas são um garoto com câncer avançado, Lars, (Gilles de Schryver), outro tetraplégico, Philip, (Robrecht Vanden Thoren) e um homem cego, Jozef (Tom Audenaert).

A premissa pode parecer esquisita, mas é só pensar logicamente e perceber que eles também têm essas necessidades, embora precisem ultrapassar muito mais barreiras que pessoas sem deficiências. O diretor Geoffrey Enthoven e os roteiristas escolheram tratar o assunto de maneira cômica, mas sem nenhum momento apelar para sentimentalismos e piadas fora de contexto. E isso é curioso, uma vez que você irá rir de inúmeras piadas politicamente incorretas, porém contadas pelos próprios personagens; é quase que uma permissão que eles nos dão para rir de seus destinos tristes. Sim, porque o filme também não tenta dar lição de moral do tipo “olha como eles têm dificuldades e conseguem superar”. Na verdade, os três só querem uma noite de sexo e nada mais, um momento de alívio que não os afasta de seus problemas e da consciência de vida limitada que eles têm.

A cena de abertura talvez seja uma das piadas mais sarcásticas e “negras” (de humor negro, sem preconceitos, por favor) do filme: duas mulheres lindas e desejáveis correm pela praia em câmera lenta, até que Philip, o garoto tetraplégico, as seca com o olhar, mas precisa virar sua cadeira eletrônica para acompanhá-las. Em poucos minutos já somos jogados no universo de “Hasta La Vista”. E assim segue com a apresentação dos outros dois personagens, sempre com brincadeiras sutis e certeiras com suas deficiências. Essa demarcação ainda é eficaz para diferenciar os protagonistas e, sobretudo, apresentá-los como pessoas iguais àquelas sem deficiência. Philip é mimado e muitas vezes chato, Jozef é quase 100% cego mas faz de seu problema algo muito maior do que realmente é, e Lars não dimensiona seu próprio potencial. Enfim, um quadro limpo de três pessoas normais, como eu e você.

A entrada deles na jornada rumo ao tal El Cielo, um bordel especializado em “gente como nós” (como um dos personagens diz), é cautelosa e segue os passos calmamente, inclusive acertando ao acrescentar na trama a carrancuda mas simpática Claude (Isabelle de Hertogh), que faz as vezes de enfermeira e motorista da viagem. É a peça que faltava e que vai, aos poucos, unindo ainda mais os três amigos e servindo como chave para auto-reflexão dos personagens. Mas, repito: não há lição de moral, pois o roteiro trata a viagem de maneira divertida – como no momento em que Philip e Lars caem no chão e Jozef (cego) tenta ajudá-los em vão. Seria trágico se não fosse cômico pelo olhar da tela de Geoffrey Enthoven. Jozef e Claude, aliás, têm uma ligação especial que vai sendo construída ao longo do filme – e Jozef parece bastante com Jack, personagem esplendorosamente vivido por Phillip Seymor-Hoffman em “Jack Goes Boating”. O elenco é outro trunfo do filme, pois até Robrecht Vanden Thoren consegue extrair ótimos momentos de seu personagem mesmo tendo como recurso somente a voz e os movimentos da cadeira eletrônica.

“Hasta La Vista” não é um filme de superação, mas sim uma divertida e extremamente eficiente história de amizade que trata a todos de forma igual e sem preconceitos.

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.