Crítica de Filme – Na Estrada

direção: Walter Salles
elenco: Sam Riley, Kristen Stewart, Garrett Hedlund, Kirsten Dunst, Alice Braga, Viggo Mortensen
país: EUA/França/UK
gênero: drama
ano: 2012

Ícone da geração beat, parecia impossível que “Na Estrada” pudesse virar filme, mas foi nas mãos de Walter Salles que a obra ganhou vida no cinema, muito embora com diversos problemas já previstos por quem conhece o livro de Jack Kerouac.

“Na Estrada” conta a história de um grupo de jovens – Sal Paradise (Sam Riley), Dean Moriarty (Garrett Hedlund), Marylou (Kristen Stewart), dentre outros – que vive com intensidade a década de 1950.

Talvez o filme seja complicado para quem não leu o livro que o inspirou. Sem referências anteriores ou qualquer tipo de empatia prévia, o espectador é convidado a mergulhar repentinamente e intensamente na América da década de 1950, mas através dos olhos de quem viveu da maneira mais louca e inconsequente. Claro que essa questão carrega um lado positivo, afinal, é um mundo novo a se descobrir. Mas também pode ser um tiro no pé. O roteiro assinado por Jorge Riveira gasta poucos minutos apresentando os personagens a quem não os conhece; a grande parte do filme transcorre durante as aventuras dos mesmos, o que, convenhamos, direciona diretamente nossas conclusões a partir somente do que eles estão vivendo, com pouco conhecimento de quem eles realmente são ANTES de realizarem suas trajetórias. A estrutura está bela, mas sem base.

Por isso é um pouco difícil compreender porque Sal Paradise resolve cair na estrada. Obviamente que o fator juventude e os questionamentos inerentes à idade ajudam (quem nunca teve essa vontade aos 20 anos?), mas o motivo principal é pouco explorado. Se no livro é por causa de uma separação, no filme é a morte do pai. Justo, mas o garoto parece bobo demais ao se encantar por Dean Moriarty, um sujeito que exala sexo e atrai todo tipo de gente que só pensa em transar com ele. Sua companheira Marylou e seu amigo Carlo sentem igual atração pelo cara, como se ele fosse uma espécie de guia moral e espiritual daquela época. No livro, Kerouac é explícito, mas não transforma Sal, Marylou e Carlo em meros seguidores. No longa, Sal é o enfoque, é narrador, mas o protagonista parece ser Dean. Falta a Salles e Rivera a marcação clara das motivações ideológicas da geração beat, que se notabilizou pelo desprendimento material, liberação sexual e questionamento político sem ser panfletário. Tudo isso está lá na tela, mas falta, às vezes, tratar o assunto um pouco mais seriamente e estabelecer conexões mais fortes entre as ações dos personagens e o contexto histórico.

Ainda que essa ponte falhe, “Na Estrada” é um ótimo registro pontual de um grupo de jovens entediados (no mínimo isso) com suas vidas. E tecnicamente Salles é mais do que eficiente. Ele consegue filmar cenas belíssimas, onde a ode ao desejo e à luxuria se fazem presentes. Sal, Dean e todos seus amigos vivem num mundo de desprendimento e, embora a amizade seja super importante, eles conseguem viver sem destino. Isso pode ser comprovado com a infinidade de personagens de aparições relâmpago (Old Bull Lee, Jane, Terry etc), que cruzam a vida dos protagonistas rapidamente, deixam sua marca e descansam belamente em suas memórias. Salles consegue criar ótimas cenas para cada um deles, e todos têm o que dizer, o que acrescentar à ainda incipiente, mas intensa, vida de Dean e Sal. Se o jazz frenético ou as doses de entorpecentes ajudam a ambientar os personagens numa época única, esses coadjuvantes têm igual importância como forma de moldar Dean e Sal no que eles estão se transformando.

O elenco todo está inspirado, da normalmente sem graça Kristen Stewart, que faz uma ótima e frágil Marylou, passando por Sam Riley (grande interpretação de Sal, o alter ego de Keroac), até o sensual Dean, vivido por Garrett Hedlund.

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About Rodrigo Carreiro

Editor do blog e apaixonado por música, cinema e cultura pop em geral. Para pagar as contas, é jornalista e pesquisador de comunicação, política e internet.