Crítica de Filme – 500 Dias com Ela (2009)

direção: Marc Webb
elenco: Zooey Deschanel, Joseph Gordon-Levitt, Minka Kelly, Matthew Gray Gubler
país: EUA
gênero: drama/romance
ano: 2009
Título Original: 500 Days of Summer
À primeira vista, para desavisados, “500 Dias com Ela” pode parecer apenas mais uma comédia romântica, mas definitivamente essa alcunha não pode ser dada ao filme. Misturando referências de produções recentes e bem sucedidas com uma leitura pop dos relacionamentos, o longa agrada pela história, trilha sonora, atores e todo o resto.
O filme é a história de Tom (Joseph Gordon-Levitt), amargurado jovem de Los Angeles que vê sua vida mudar ao conhecer Summer (Zoey Deschanel). Ponteado por músicas pop tristonhas, o casal se aproxima e começa um relacionamento cheio de idas e vindas.
Como escrevi na abertura, a sinopse de “500 Dias com Ela” é de um típico, modorrento e clichê filme de comédia romântica. Esse gênero que eu tanto condeno e que vem dominando parte da produção Hollywoodiana da última década, graças aos deuses do olimpo cinematográfico, não dá as caras por aqui. Embora trate da clássica história do “homem sem perspectivas de vida encontra mulher, se apaixonam e algo de errado acontece para impedir a felicidade de ambos”, o filme toma o cuidado de não recair nas repetições típicas. E isso é todo mérito do roteiro assinado por Scott Neustadter e Michael H. Weber, que consegue aliar sutileza com agressividade, amargura com momentos extremamente felizes, e tudo isso contado de forma simples e apoiada numa dupla de atores com uma química incrível. Tom e Summer parecem feitos um para o outro – e assim é também Joseph e Deschanel.
A trama “romântica” (as aspas estão de propósito; quando você vir o filme vai entender) remete a alguns clássicos pop modernos. É possível ver traços de “Amélie Polain”, quando somos apresentados a determinados personagens e acabamos viajando em seus pensamentos; está presente principalmente no começo do filme. Também há uma semelhança do mote principal do filme com a trama de “Alta Fidelidade”, um longa que começa elegendo o top 5 das relações amorosas desastrosas de seu protagonista, além da utilização da trilha. Esse ponto também é puxado um pouco de “Um Beijo a Mais”, além de vermos também toques de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, principalmente na condução da história e no seu desfecho (mais pela “mensagem” final do que pela finalização em si). E, claro, é possível ver um pouco de “Juno” também, afinal, tem muita música pop nerd e desilusões amorosas do mundo jovem.
Essa colagem de referências dá ao longa uma farta sustentação, um amontoado de bons momentos que o diretor Marc Webb consegue conjugar muito bem. Ele domina a câmera e faz dos atores quase que personagens reais do nosso dia a dia – e, afinal, não é exatamente isso mesmo? A história de desilusões de Tom é perfeitamente refletida em parentes, amigos e colegas de trabalho. E, o melhor, reverte um clássico preceito machista, ao mostrar a mulher como descompromissada e o homem com uma certa neurose amorosa. E isso tudo é fruto da própria criação de Tom e de suas referências musicais, que o roteiro deixa claro ao mostrar diversas (belas) canções ao longo do filme. A própria maneira como Webb achou de contar a história aproxima a trama do nosso cotidiano, por isso os vai-e-vem do roteiro e algumas “viagens” dos personagens que acompanhamos de maneira divertida (especial atenção para a cena em que Tom comemora um “feito” pessoal).
Porém, de engraçado o filme não tem nada. Por trás de sua capa moderna, ágil e pop, “500 Dias com Ela” remonta a problemas sérios com relação aos romances atuais e a forma como o jovem trata seus relacionamentos. O roteiro capta bem essa mudança de paradigmas, fugindo de maneira sagaz da artificialidade dos clássicos romances recentes em que sempre tudo dá errado para que no final tudo dê certo. Aqui, o diagrama é outro: tudo pode dar errado num relacionamento para que, no final, tudo continue errado. Ou simplesmente pode piorar mais ainda. Ou melhor: tudo pode ser apenas momentos triviais de tristeza para se encontrar a felicidade num “passe de mágica”. Tudo depende, e o destino, nesse sentido, faz toda diferença.
“500 Dias com Ela” ainda apresenta uma trilha sonora afiada, com direito a Smiths, Feist, Carla Bruni, Pixies, Doves, The Clash e muita coisa boa. As referências pop “gritam” no filme, mas em momento nenhum são muletas para conduzir a trama. E, ao final da projeção, a sensação é de leveza, muito embora a história seja extremamente forte e carregada de emoção.
Café com Pop é uma produção do jornalista baiano Rodrigo Carreiro, 25 anos, atento ao mundo da música e apaixonado pelo cinema. No cardápio, comentários, notícias, vídeos, sons, fotos e tudo quanto é coisa pop que possa vir acompanhado de um bom e velho cafezinho.













