Arquivo

Textos com Etiquetas ‘crítica de filme’

Crítica de Filme – Exterminador do Futuro: Salvação (2009)

10, junho, 2009 admin 13 comentários

nota07

direção: McG
elenco: Cristian Bale, Sam Worthington, Anton Yelchin
país: EUA
gênero: ficção científica
ano: 2009
título original: Terminator Salvation

Dirigido por um diretor, McG, avesso a qualquer desenvolvimento de personagem e adepto fervoroso da edição “um-corte-por-segundo”, “Exterminador do Futuro – A Salvação” decepcionou aquele que esperavam o velho ‘Mc’. Apesar de algumas falhas, McG consegue dar um novo fôlego à serie que já vinha no limbo, dessa vez conseguindo criar boas cenas de ação e um bom envolvimento narrativo.

“Exterminador do Futuro – A Salvação” retoma a história de John Connor (Cristian Bale), soldado da resistência humana contra as máquinas que dominam o mundo em 2018. Num cenário apocalíptico, John lidera um “exército” de homens em busca de salvação, mas vão enfrentar novos desafios e contar com a ajuda de novos personagens, como Marcus Wright (Sam Worthington).

As primeiras cenas do filme não deixam dúvidas de como será o restante da projeção: muito confronto, explosões e uma eterna luta homem x máquina. O tema, ainda bem, não é abandonado, pois ele é o principal motivo da existência da série, quando lá pelos idos de 1984 James Cameron dirigiu o primeiro filme dos quatro. Se essa temática perpassa todos os filmes, dessa vez o roteiro de “Salvação” dá uma boa guinada na narrativa da história: se nos outros longas a lógica da perseguição e salvação de dois personagens (John e sua mãe Sarah Connor) era dominante, aqui a tentativa da destruição total das máquinas é que dá as cartas do jogo. E mais: o protagonista é John, o que não acontece em nenhum dos outros filmes. Claro, esse protagonismo é dividido com Marcus, um misterioso homem que surge em meio à uma batalha e que passa a perseguir seu passado (uma versão atualizada de Jason Bourne ou Wolverine).

Por si só, essa lógica já dá um novo fôlego à série, que vem de uma desastrosa terceira parte, em que só se viu correria e nada de história. Em “Salvação”, Connor se agarra a uma nova perspectiva de aniquilação das máquinas, uma descoberta que pode arruinar de vez com a raça humana, mas que também pode dá sobrevida aos homens. Nesse contexto esperançoso, Bale se entrega de maneira tímida ao personagem, embora no frigi dos ovos ele consiga uma boa atuação – mesmo assim, Batman o deixou com a voz eternamente rouca? Está excessivamente sério (que não pode ser confundido com inteligência e concentração), mas consegue dar certo tom dramático que o papel exige em alguns momentos. A relação dele com Kate é que é falha, já que ela é mais parecida com uma porta do que com um ser humano cheio de sentimentos.

O filme ainda consegue boas cenas de ação, num raro momento na carreira do péssimo McG, que dessa vez cria a tensão necessária na maioria das cenas. Consegue também criar momentos em que não corta o take a cada 1 segundo, mostrando que consegue criar cenas impactantes com um pouco de criatividade. A história, porém, peca quando cria muitos tipos de máquinas e robôs gigantes; há praticamente um tipo de máquina para cada situação que possam enfrentar em batalha, desde motos superinteligentes, até mega estruturas de metal que mais parecem um dos Transformers. Essa é uma forçada de barra do longa, assim como alguns furos no roteiro que foram deixados para que a história criada se complete com as anteriores. Não custava nada mais um esforço da turma do roteiro.

Mas, num plano geral, a história acerta ao nos transportar para um cenário novo e completamente destruído, onde vemos homens escondidos como ratos na busca por salvação – e nesse ponto a equipe é competente ao criar boas situações de sobrevivência e cenários bem feitos e esteticamente impecáveis. A condução da história, como é de praxe em filmes do gênero, nos leva a crer em uma coisa, quando na verdade veremos que é outra completamente diferente. Esse ponto é importantíssimo: a surpresa é definitivamente uma surpresa, que impacta diretamente em diversos questionamentos que já tinham sido discutidos nos filmes anteriores, principalmente no segundo (o melhor de todos, diga-se de passagem).

Se a estrutura rende bem e certos aspectos há um exagero, inclusive na conclusão final infantil e boba, o público sai satisfeito por acompanhar uma história nova, porém dentro de um contexto já conhecido. E é bastante interessante conseguir acompanhar as diversas referências que há aos antigos filmes, que não estão latentes, mas criam uma colcha de retalhos sutil e saborosa.

P.S. SPOILER SPOILER SPOILER
A aparição de Arnold Schwarzenegger é pífia e beira o ridículo. Tudo bem, não é ele, mas a representação é. Essa referência era melhor não ter entrado.

Crítica de Filme – Mulher Invisível (2009)

4, junho, 2009 admin 15 comentários

nota06

direção: Claudio Torrer
elenco: Selton Melo, Luana Piovani, Fernanda Torrer, Maria Manoela, Vladmir Brichta
país: Brasil
gênero: comédia
ano: 2009

Da nova safra de filmes de comédia do Brasil, que ainda conta com “Se Eu Fosse Você”, “Divã” e outros, “Mulher Invisível” talvez seja o mais consistente, embora peque em diversos aspectos. Mesmo com roteiro frágil e previsível, o filme consegue se manter graças ao carisma e talento de seu protagonista (Selton Melo), além da boa dinâmica dele com o restante do elenco.

“Mulher Invisível” é a história do controlador de tráfego Pedro, que cria na imaginação uma mulher perfeita, logo após ser chutado pela esposa. A tal mulher perfeita (Luana Piovani) realiza todos os desejos do rapaz, mas a situação começa a mudar quando uma outra mulher entra na parada.

O filme é mais um exemplar produzido com a marca “Globo Filmes”, o que traz ótimos pontos (como financeiro), mas também carrega consigo um peso enorme. Como já comentei aqui sobre “Divã”, essa nova produção também tem todas as características de uma produção global-novelística. Tá. Eu sei que é chato, mas eu não posso deixar de registrar essa pasteurização de certos filmes nacionais. Claro, em alguns aspectos não há problema – principalmente quando há em cena um ator no auge de sua carreira, como é o caso de Selton Melo -, mas no geral é um pacotão básico, um modelo estruturado que serve para vários filmes. Deixando um pouco isso de lado, o diretor Cláudio Torres acerta quando prepara o filme todo para Selton brilhar, interferindo pouco em cena e até aparando algumas arestas aqui ou ali.

A narrativa é construída de maneira bastante linear. Apesar de tentar criar um certo clima de suspense, todo mundo já sabe mais ou menos o que vai acontecer – até porque o trailer entrega bastante coisa. O que não entrega, no entanto, é a história paralela do outro lado do “triângulo amoroso”, vivida por Maria Manoela, um papel que exige um pouco mais e que a atriz interpreta de maneira correta. O grande trunfo do filme, no entanto, são as ‘gags’ de Selton e seu elenco de apoio – assim mesmo, “de apoio”. Assim como Jim Carrey e outros grandes comediantes, o ator brasileiro tem o terreno todo para si e consegue, com isso, estabelecer uma boa dobradinha com Vladmir Brichta, que vive Carlos, seu melhor amigo. Mesmo repetindo um tipo muito parecido com o que já fez em outros filmes (’Romance’, por exemplo) ele vai bem ao lado de Selton, assim como Fernanda Torres ataca como a conselheira amorosa da personagem de Maria Manoela. Mais uma vez, ela repete a si mesma (Vani de ‘Os Normais), mas tem lá seus bons momentos.

O roteiro, sim, é o fundo do poço do longa. Linear demais, previsível e frágil na maioria das cenas, ele leva a história a pontos bem chatos. No entanto, creio que o tipo de história cairia perfeitamente num daqueles seriados noturnos de sexta-feira da Globo, com muita comédia e temática mais adulta. Funciona melhor.

Crítica de Filme – Budapeste (2009)

25, maio, 2009 admin 13 comentários

nota08

direção: Walter Carvalho
elenco: Leonardo Medeiros, Giovana Antonelli, Gabriella Hámori
país: Brasil/Hungria
gênero: drama
ano: 2009

Uma história densa. Se fosse pra resumir em poucas palavras seria dessa forma que eu faria, embora “Budapeste” não seja chato nem pesado, e sim um filme cheio de nuances, com um elenco afiado e a direção do sempre competente Walter Carvalho. No filme, tudo é, mas tudo pode verdadeiramente ser diferente.

“Budapeste” conta a história de Costa, um ghost-writer carioca que faz sucesso escrevendo romances e biografias para terceiros, sem nunca ganhar crédito com isso. Sua vida começa a mudar quando ele conhece a capital da Hungria, que parece fornecer um grande fascínio sobre ele e que vai mudar para sempre sua vida.

Walter Carvalho não é qualquer um. Dono de uma carreira quase irretocável como diretor de fotografia – assinou essa direção em filmes como Amarelo Manga, Abril Despedaçado e Lavoura Arcaica -, ele estréia agora na direção. E logo de cara enfrenta o desafio de transpor para as telonas uma história aparentemente simples, porém com uma carga de complexidade enorme. À primeira vista, “Budapeste” é bem cotidiano, um drama típico de um artista competente que não consegue reconhecimento profissional, enfrentando ainda problemas familiares. Mas não, a densidade dramática do livro de Chico Buarque é grande – e Carvalho parece que tem a exata noção disso. Por esse motivo, o diretor escolheu o elenco a dedo (tudo bem, Giovana Antonelli é o deslize, mas ela não compromete), que consegue conduzir as nuances e detalhes de cada personagem de uma maneira bastante competente. Claro, o protagonista é o sempre excelente Leonardo Medeiros, que mais uma vez se entrega de corpo e alma a Costa, um homem maduro e consciente de si mesmo, mas que enfrenta problemas sérios de auto-afirmação e insegurança.

Essas duas últimas palavras, aliás, poderiam revelar muito bem o que é o filme: auto-afirmação e insegurança. Diversos personagens (ou todos) sofrem dessas adversidades, desde Costa – que tem orgulho de ser ghost-writter, mas no fundo sofre horrores por não ser reconhecido na rua, como sua mulher Vanda (Antonelli) -, passando pela própria Vanda – que a todo momento pede opinião alheia quanto a seu trabalho como âncora de TV, além de babar quando alguém a entrevista – até chegar a Kriska (Gabriella Hámori), o amor húngaro de Costa que nutre um sentimento dúbio em relação ao brasileiro.

Dentro desse contexto, a narrativa é inicialmente criada de forma linear, mostrando os problemas sérios que Costa enfrenta no Rio até chegar ao momento redentor em Buapeste, a “cidade amarela”. Esse é o ponto crucial do filme, já que entender o fascínio social, físico (vide o caso do cigarro “andorinha”) e amoroso de Costa com a cidade é imprescindível para captar o desenrolar da história. Falando assim parece realmente complicado de seguir o filme, mas verdadeiramente não é. Quando está em Budapeste, Costa se transforma e passa a viver como se estivesse olhando para o espelho da sua própria alma – e não é à toa que em vários momentos do filme espelhos são vistos em cena. Essa relação é tratada de forma incrível por Carvalho, que emprega o filho Lula na direção de fotografia e faz com ele uma dobradinha essencial para a construção narrativa através das cores. Os sentimentos internos de cada personagem perpassam as ruas e corredores da história para chegar ao espectador na cor certa e no tom manipulado de forma audaz pela dupla de pai e filho.

Analiticamente, dá para fazer um paralelo entre Budapeste e dois filmes recentes: Encontros e Desencontros e Romance. Esse último, uma escorregada feia do cinema nacional, mais pelo fator metalinguagem, que é fartamente explorado no filme de Carvalho e de uma maneira sutil ao longo de todo o filme. Com o longa de Sofia Coppola, pode-se comparar a diferença local de língua, costumes e cultura entre dois países diferentes e como um personagem consegue lidar com isso. Aqui, Costa desenvolve uma intricada relação de amor e ódio com a cidade, envolvendo-se com putas, bêbados, figuras decadentes, mas também com o mundo intelectual do local.

Esses detalhes enobrecem o filme, embora Walter Carvalho derrape um pouco no exagero de determinadas cenas (claro, ele queria pontuar com bastante clareza algumas cenas, mas não precisava tanto) e em outras de nudez – contei seis momentos de sexo explícito. De qualquer modo, poder assistir a um filme que nos dá, além de uma ótima sensação momentânea, farto material para discussão posterior, é realmente enobrecedor.

P.S.: para quem gosta de futebol, preste atenção nos nomes dos personagens húngaros. São uma homenagem ao glorioso time da Hungria de 1954. Puskas está lá, outros já me disseram que também são lembrados, mas eu não reconheci. Bela homenagem.

Crítica de Filme – Anjos e Demônios (2009)

20, maio, 2009 admin 17 comentários

nota06

direção: Ron Howard
elenco: Tom Hanks, Ayelet Zurer, Ewan McGregor, Armin Mueller-Sthal
país: EUA
gênero: ação/suspense
ano: 2009
título original: Angels and Demons

Diferentemente de “Código Da Vinci”, quando o filme padecia de inúmeros pecados, dessa vez a saga de Robert Langdon em “Anjos e Demônios” consegue suprir alguns defeitos do passado e sair vitorioso em diversas outras situações, porém uma coisa é certa: transpor para as telas um tipo de história como essa, sem incorrer em erros bobos e clichês desnecessários, é quase impossível.

“Anjos e Demônios” é a história do professor especialista em história da religião católica Robert Langdon (Tom Hanks), que é chamado pelo Vaticano a desvendar um intricado mistério envolvendo a Igreja que pode pôr abaixo parte da Itália. Para a aventura, o professor conta com a ajuda da bela Vitória Vetra (Ayelet Zurer) e de outros personagens importantes, como o Camerlengo (Ewan McGregor) e o Cardeal Strauss (Armin Mueller-Sthal).

Dessa vez Robert Langdon não vai atrás apenas da resolução de um mistério escondido na escuridão histórica do catolicismo, e sim é impelido em ajudar a Igreja numa arriscada missão que pode salvar o Vaticano e a vida de muitas pessoas. Falando assim, essa é apenas mais uma história de um thriller de ação – e na verdade, em parte, é isso mesmo. Parte do trunfo de “Anjos e Demônios” é não se esquecer que, antes de mais nada, ele é um filme de ação, o que ajuda bastante na condução da narrativa. O filme não se preocupa com outros aspectos que possam atrapalhar seu real objetivo, que é de entreter e criar um suspense de tirar o fôlego. Claro, a carga histórica está toda lá, mas o que poderia virar apenas uma aula de história da arte/religião (como a maior parte de “Código Da Vinci”), toma isso apenas como pano de fundo para criar um thriller frenético e com boas doses de suspense.

O diretor Ron Howard conta com um bom elenco para lhe apoiar nessa empreitada, fato que é imprescindível para o resultado final. Tom Hanks está correto, mas ainda assim não consegue criar um Langdon superior à própria história (como Harrison Ford fez com seu Indiana Jones), assim como Ewan McGregor apenas liga o piloto automático e segue em frente. O destaque no elenco, porém, fica por conta do Cardeal Strauss, um personagem que tem poucas cenas – o que é uma pena, mas que cria um suspense importantíssimo para trama. A condução narrativa é toda voltada para o suspense e as invencionices do professor Langdon, que usa toda sua capacidade intelectual para resolver os enigmas que lhe são impostos. Sempre ciente de seus objetivos, o herói aqui é falho e necessita de ajuda externa para resolver os conflitos, o que é mais humano do que um herói sem erros e que tudo sabe. A resolução dos enigmas, portanto, é a chave de condução da história, que toca em pontos interessantes da atual conjuntura política e religiosa. Temas como ciência versus religião e manipulação midiática dão certo toque de atualidade para que o espectador reconheça na história não apenas um thriller de ação, mas que também possa discutir esses assuntos de forma tangencial. Porém, nada que atrapalhe o suspense, as perseguições de carro, os mistérios indissolúveis, as reviravoltas mirabolantes e o final surpreendente.

Todavia, qualquer que fossem o diretor e roteirista do filme, com certeza cairia num beco sem saída. A carga histórica e documental de “Anjos e Demônios” é tamanha, que seria impossível conseguir colocar na telona um filme que fosse ao mesmo tempo suspense/ação e também informativo. Talvez fosse o caso de fazer um novo Senhor dos Anéis, com suas intermináveis 3h30 de filme, mas aí provavelmente o resultado não seria completo. Essa dificuldade é o que mata o longa: em diversos momentos somos cortados de uma situação religiosa importante para sermos jogados em uma perseguição dentro de uma Igreja qualquer da Itália. E também perdemos minutos preciosos sendo apresentado a trilhões de informações num curto espaço de tempo, sendo que, mesmo sendo imprescindíveis para o entendimento da história, o andamento do filme fica completamente comprometido.

Essa dicotomia estraga uma parte considerável do longa, embora em diversos momentos somos apresentadas a algumas boas cenas de ação e outros momentos históricos e informativos de grande valia. Como representante ativo do gênero ação, “Anjos e Demônios” também segue a velha cartilha do gênero: reviravoltas absurdas, tiros em pleno dia sem que ninguém veja, perseguições de carro, correria, explosões e um final um pouco forçado. É um thriller, oras.

Crítica de Filme – X-Men Origens: Wolverine (2009)

14, maio, 2009 admin 13 comentários

nota04

direção: Gavin Hood
elenco: Hugh Jackman, Liev Schreiber, Danny Houston, Lynn Collins
país: EUA
gênero: ação
ano: 2009

Para entender melhor “X-Men Origens: Wolverine”, o mais indicado é analisar apenas um personagem; e não é o próprio Wolverine. A cara do filme é, na verdade, The Blob: gordo, fora de forma, forte, com brilhos raros e derrotado ao final da luta. Ele é a síntese perfeita do filme, que tem personagens em excesso, cenas de ação pouco convincentes – apesar de uma ou outra parte mais empolgante – uma história forte e um final constrangedor de tão ruim.

“X-Men Origens: Wolverine” volta na história dos heróis dos quadrinhos para contar o surgimento de Wolverine (Hugh Jackman). O filme segue da infância do herói até chegar ao momento em que ele aparece, já ao lado da bela Kaila (Lynn Collins), longe das lutas e brigas que marcaram sua vida, tentando fugir do passado que o liga ao inescrupuloso Stryker (Danny Huston) e seu irmão, Creed “Dente de Sabre” (Liev Schreiber).

A escolha inicial do diretor Gavin Hood é convincente. Ele acompanha com firmeza os acontecimentos iniciais da vida de Logan, dando uma interessante motivação para o verdadeiro surgimento do mutante. Logo depois, o filme consegue dá um ótimo dinamismo ao mostrar os dois irmãos lutando lado a lado em algumas guerras importantes na história dos EUA. Ao aliar os créditos iniciais a essas cenas, Hood dá um tiro certeiro e parecia antever boas cenas de ação – as elipses são muito bem cuidadas e a ação é quase impecável. No entanto, é uma pena que grande parte da eficiência do filme esteja apenas nesses minutos e não perpasse o restante do longa.

A narrativa parece desequilibrada, com a ação direta dos acontecimentos rolando somente após mais da metade do filme. No começo, alguns personagens parecem deslocados, surgindo na tela apenas para mostrar que estão ali e serem reconhecidos pelos fãs. A maioria deles em nada acrescenta à trama, realizando apenas algumas fracas cenas de ação (imitando o medíocre “O Procurado”, o que é uma lástima, e até Matrix, uma sacanagem com os irmãos Wachowski) e logo depois desaparecendo. É uma pena, porque seria interessante que acompanhássemos o desenvolvimento psicológico e social de parte deles, como bem fez a trilogia inicial de X-Men. Hugh Jackman encarna muito bem, mais uma vez, um Wolverine animalesco e misterioso, embora aqui ou ali falte um pouco do sarcasmo habitual do mutante. O filme, todo calcado na atuação de Jackman, peca por não dar motivações suficientes para as ações do personagem, assim como faz com os demais. Todo mundo segue miseravelmente seu destino inexorável, como se fossem programados para serem daquela forma como computadores de última geração.

A ausência das motivações é inversamente proporcional à quantidade de mutantes no filme. O roteiro desperdiça, inclusive, a história de Gambit e de Dente de Sabre – esse último aparece na maioria das vezes como mero antagonista de Wolverine, quando na realidade é muito mais do que aquilo. Na condução da narrativa, o roteiro ainda mistura histórias demais num mesmo filme, já que Wolverine é responsável por inúmeras HQs. No visual, a equipe técnica não teve o menor cuidado, realizando efeitos especiais precários (o que são aquelas garras ridículas feitas por computador? Ninguém lembrou que nos outros três “X-Men” as garras do herói eram bem feitas?) e soluções visuais incorretas para as lutas, muitas vezes tremendo a câmera demais, cortes em menos de 1 segundo e poluindo a tela. Prestando bem atenção, o espectador quase não distingue nada na tela, só borrões e explosões – e a cena da luta entre Wolverine e Gambit é um exemplo claro disso.

Esse mix não fez bem, assim como o final do filme. Repleto de situações absurdas, que se eu contasse aqui seriam belos spoilers, a história se finaliza de uma maneira insossa, dando uma explicação sem sentido para a perda de memória de Wolverine e um destino sem noção para o restante dos personagens mutantes.

Crítica – Divã (2009)

1, maio, 2009 admin 36 comentários

nota05

direção: José Alvarenga Jr.
elenco: Lília Cabral, José Mayer, Alexandra Richter, Cauã Reymond, Reynaldo Gianechinni
país: Brasil
gênero: drama/comédia
ano: 2009

Com uma temática extremamente feminista, “Divã” tem feito sucesso por dois motivos: justamente por essa temática ele agrada as mulheres e o lado cômico do filme se encarrega de fisgar os homens. No entanto, a história não consegue se manter pertinente do começo ao fim, tendo o roteiro que se ancorar diversas vezes na comédia para seguir em frente, e abandonar o tema mais “sério” em contrapartida.

“Divã” conta a história de Mercedes (Lília Cabral), uma mulher com um casamento tradicional que passa a rever os conceitos do matrimônio com Gustavo (José Mayer). Nesse questionamento, ela vive outros romances e revê diversos aspectos de sua vida.

O filme adota inicialmente quase um tom de conversa com o público. Sentada no divã de um consultório de analista, Mercedes passa a contar sua vida diretamente para a tela, mesclando assim uma metalinguagem (já que ela “conversa” com as mulheres da platéia) e uma narração. Esse recurso, aliás, é muito perigoso em qualquer filme e se não for bem feito vira muleta do roteiro. E é justamente o que acontece aqui. Quando o roteiro desgasta determinado assunto, logo volta para o divã e Lília Cabral passa a descrever outras tantas peripécias de sua personagem, embora nem sempre esses relatos sejam pertinentes. A atriz, como é usual, está muito bem no papel, conseguindo se equilibrar entre a comédia e o drama.

O problema do personagem dela, e de todo o longa, é a extrema semelhança com a teledramaturgia da Rede Globo. Pode parecer chato ficar repetindo isso, mas uma infinidade de filmes nacionais padecem desse pecado: copiam o modelo de novelas da globo em sua concepção técnica e estrutural. Até as roupas de Mercedes são pinçadas de novelas-água-com-açúcar de Manoel Carlos. As tomadas? Igualmente roubadas de grandes diretores da TV, como Daniel Filho e Marcos Paulo. Não é à toa, aliás, que o diretor de “Divã” seja José Alvarenga Jr., tarimbado na arte televisiva. Não só isso, mas “Divã” também sofre com piadas muitas vezes recicladas, mas que fazem rir pela repetição. Já falei aqui na crítica de “Sim, Senhor” que existem piadas que naturalmente farão rir, porque mexem com estereótipos enraizados na nossa cultura, a exemplo de situações envolvendo gays afetados e quedas. É “batata”.

Lá em cima eu disse que o filme é extremamente feminista, e isso parece claro até para as mulheres. Tratando o homem como um eterno mulherengo, insensível e fã de futebol, o longa faz uma separação maniqueísta dos dois gêneros, para que dessa forma a personagem que “sofreu” a vida toda (embora ela admita que nem foi tanto assim) possa se emancipar das garras do casamento com um marido chato e sem sensibilidade. E toma-lhe lições de moral quanto a traição, amor, união, carinho e amizade. Algumas falas chegam a saltar aos olhos de tão “certinhas” que são, claramente pinçadas da obra de Marta Medeiros, que deu origem ao filme. “Divã” ainda tem uma reviravolta completamente sem sentido, quando o filme ia para uma direção oposta e, sem maiores explicações, como que querendo dar uma guinada na história de qualquer jeito, a história tem um fato trágico para dar sentido a algumas “verdades” do roteiro.

Mesmo interpretando bem a protagonista, Lília Cabral não pode fazer milagre e é muito inverossímil, como todos já viram no trailler, uma mulher daquela ser cobiçada por galãs como Cauã Reymond e Reynaldo Gianechinni – e não me venham dizer que esse último já foi casado com Marília Gabriela, porque a situação é bastante diferente. Entrando num mundo que não conhece, Mercedes muda muito rapidamente de lado, digamos assim, passando de uma total inerte, para uma mulher descolada e ciente de seus atributos sexuais (até nua aparece, não frontal, mas de relance).

Para completar a obra, uma trilha sonora extremamente sem noção, com músicas tão óbvias quanto uma mangueira que dá manga. Pior: no final dá uma bela lição de moral para os espectadores, como se todos ali fossem pouco inteligentes e não tivessem sacado o filme desde as primeiras cenas (dá até para entender tudo vendo apenas o trailler, de tão “profundo” que é o filme).

Crítica de Filme – Che: O Argentino (2008)

27, abril, 2009 admin 9 comentários

nota091

direção: Steven Soderbergh
elenco: Benicio Del Toro, Demián Bichir, Rodrigo Santoro
país: EUA
gênero: drama/biografia
ano: 2008
título original: Things Che, El Argentino

Assistir a “Che – O Argentino” pode ser uma experiência estranha. Se por um lado sabemos que um outro pedaço do filme virá para completar a história (do filme, não historiográfica), por outro também podemos analisá-lo dissociadamente. E é essa análise em separado que pode talvez arruinar, aos olhos de muitos, o longa de Soderbergh, mesmo ele tendo inúmeras virtudes narrativas e técnicas.

O longa segue o triunfo de Ernestro Guevara (Benicio Del Toro) e Fidel Castro (Demián Bichir) na revolução cubana, mostrando de maneira quase épica algumas batalhas que levaram os guerrilheiros cubanos ao sucesso. Em paralelo, também somos apresentados a algumas discussões políticas, sociais e econômicas, representada por um Che já ministro de Cuba.

Soderbergh divide todo o filme – e aí eu incluo a versão original de 4h30 que foi apresentada em festivais, mas dividida em dois para ser lançado comercialmente – em duas partes. De um lado ele conta a história do triunfo, isto é, a história da ascensão do poder de Fidel Castro até à vitória na revolução, mostrando desde conversas corriqueiras dos guerrilheiros, até decisões importantes de guerra. É praticamente um épico, porém Soderbergh não explora o lado espetáculo do negócio, e sim joga luz sobre um homem que luta por seus ideais, no caso o argentino Ernestro ‘Che’ Guevara. Fidel Castro pouco aparece nesse primeiro filme, sendo relegado a segundo plano mesmo sendo mostrado como o grande guia político-social do povo. Quem reina é definitivamente Che, que é interpretado de maneira sóbria e eficaz por Benicio Del Toro (não, não é a melhor atuação da carreira dele).

Paralelo à ascensão de Fidel e da guerra travada entre o poder de Fulgêncio Batista e as forças guerrilheiras, acompanhamos, em menor grau, um Che mais centrado e fixado como homem público da política. E é aí que Soderbergh acerta ao modificar completamente a fotografia dessas cenas, inserindo um novo olhar àquela figura que também acompanhamos lutando na linha de frente. O ar é carregado e mais tácito, e Che é um homem concentrado em suas obrigações políticas, talvez um Che muito mais próximo do nosso tempo do que imaginamos. E é por isso que Soderbergh põe na tela uma fotografia em preto e branco, revelando a imagem clara de Guevara como um líder e consciente disso. A estética tem como referência a famosa foto de Che tirada por Alberto Korda, uma imagem que roda o mundo até hoje e que o filme consegue captar bastante o espírito.

Voltando à parte da guerrilha, as cenas de ação de troca de tiros e bombas não é o principal, e sim as conseqüências daquilo tudo para o povo cubano. Se vemos um Che mais autoritário em relação aos soldados e subordinado diretamente a Fidel, também podemos ver no argentino alguns toques humanísticos experimentado por ele em sua trajetória até chegar ali. E, nesse sentido, é importante fazer uma ligação entre esse filme e “Diários de Motocicleta”, pois muito do que se viu no excelente longa de Walter Sales pode ser visto como conseqüência direta de muitos atos do revolucionário. Mesmo assim, a figura de Che já era, naquela época, de um mito, de um homem capaz de aglutinar multidões em busca de um único objetivo, mesmo que em alguns momentos ele tenha sido intolerante. Talvez para tentar afastar um pouco esse lado mítico, Soderbergh tenha tentado não mostrar o rosto de Che na maioria das cenas, relegando a fisionomia do revolucionário às sombras, exatamente como faz com muitos guerrilheiros anônimos. Fidel não; ele, juntamente com seu irmão Raul (Rodrigo Santoro numa atuação mais do que discreta. Era ele ali?) e outros revolucionários, tinham seus rostos mais bem iluminados e projetados para o espectador. Che, nesse ponto, é mais visto como um homem do povo.

Porém, por se mostrado como homem do povo, realizando tarefas que todos cumpriam (repare que Fidel é quase um marajá: só dá ordens e se reúne com os soldados, mas não é mostrado como sendo “mais um” no meio da multidão), “Che – O Argentino” foi visto por muitos como um filme romântico em sua concepção ideológica, o que definitivamente não é. O que Fidel fez depois, com certeza o filme de Soderbergh nem está e nem deve estar interessado em discutir, mas sim jogar luz sobre um momento singular da história da América Latina.

É difícil dizer, naquela época, quais eram os reais interesses políticos de Fidel Castro na revolução (o que pode, em parte, ser discutido hoje, 50 anos depois), mas é impossível que alguém passe mais de um ano comendo mal, dormindo ao relento, caminhando léguas e arriscando a vida diariamente se realmente um ideal humano e social não existisse. O resto, a seguir, é história a ser contada em outro filme.

Crítica de Filme – Coisas Que Perdemos Pelo Caminho (2007)

22, abril, 2009 admin 6 comentários

nota07

direção: Susanne Bier
elenco: Halle Berry, Benício Del Toro, David Duchovny
país: EUA
gênero: drama
ano: 2007
título original: Things We Lost In The Fire

“Coisas que perdemos pelo caminho” é um filme de detalhes, e não só em sua composição narrativa, mas também na estética apresentada pela cineasta dinamarquesa Susane Bier. Contando uma história que alia tristeza e esperança, o longa se desenvolve amparado nas boas atuações do elenco e numa direção cheia de nuances, embora nunca soe exagerado nem melodramático.

Vemos no filme a história de Audrey Burke (Halle Berry), uma dona de casa que perde o marido Brian (David Duchovny) assassinado e que tenta reconstruir a vida. Para isso, conta com a ajuda do melhor amigo do falecido, Jerry Sunborne (Benício Del Toro), que passa a conviver mais de perto com a família do falecido.

De início, Bier adota uma caracterização interessante para Barry, que se repetirá em muito momentos do longa. Como já disse, atenta aos detalhes, a diretora põe constantemente uma leve sombra em parte do rosto de Audrey, demonstrando com isso duas coisas: o momento trágico e delicado que ela vive e uma certa dualidade da personagem, que só iremos entender do meio para o final. Essa prática funciona muito bem com ela e com outros personagens, dando uma visão mais dúbia a certos fatos aparentemente naturais. A montagem, porém, compromete a primeira parte do filme, já que prefere um vai-e-vem na trama totalmente desnecessária e que na maioria dos casos só confunde o espectador e não apresenta o mínimo motivo para tal.

A trama em si é cuidadosamente conduzida e pouco se perde pelo caminho – trocadilho inevitável, sorry -, mas muito desse triunfo se deve a Benício Del Toro, que encarna Jerry de forma impecável. Este é um viciado em heroína que tenta largar a droga a todo preço, muito embora o único que acredite nele seja Brian (Duchoveny numa atuação correta). Fazendo um Jerry introspectivo e louco, Del Toro em momento algum exagera; faz sim uma bela ligação entre ele e a viúva, num jogo de ambigüidades fortíssimo que permeia toda a história. Nesse aspecto também ele consegue estabelecer uma relação boa com os filhos do amigo, que o adotam quase como pai e que vai servir de base para outras interessantes discussões que o filme traz, como por exemplo o sentimento da perda e a tentativa de superação. Claro, tema recorrente, mas que aqui o roteiro de Allan Loeb se mostra mais sutil, ancorando-se nas relações de um amigo com a família do morto, e não em conseqüência matrimoniais ou judiciais.

O problema do filme, porém, é se tornar insosso na primeira parte, desde a confusão de vai-e-vem do roteiro, até a primeira hora do longa. As cenas se perdem um pouco e, em muitas delas, o excesso de preciosismo detalhista de Bier enjoa. A conseqüência são algumas cenas de dar sono, que só vão dar mais mobilidade narrativa depois da primeira hora, quando iremos acompanhar mais de perto o que levou Jerry a ser viciado, como ele foi ajudado pelo amigo, porque ele aceita fazer certas coisas que a personagem de Barry pede, etc. É a partir daí também que a trilha belamente composta pelo aclamado Gustavo Santaollala se destaca, mais uma vez servindo de suporte para momentos íntimos de Bier com a tela (exemplos: momentos flagrantes do “nada”, como uma folha caindo ao chão, a chuva batendo na janela, uma mero acariciar de mãos…).

No final, na verdade, é que vamos entender o porquê do nome em inglês “Things We Lost in The Fire”, numa analogia interessante entre um acontecimento banal do passado do casal com o destino que ambos tiveram na vida.

Crítica – Jogo Entre Ladrões (2009)

2, abril, 2009 admin 10 comentários

nota07

direção: Mimi Leder
elenco: Antonio Bandera, Morgan Freeman, Radha Mitchel
país: EUA
gênero: ação/policial
ano: 2009
Título Original: The Code

Filmes de roubos e assaltos aparentemente impossíveis você já viu inúmeros e é fácil descrever a história (11 Homens e Um Segredo, Os Suspeitos, Armadilha…). Claro, não é diferente em “Jogo Entre Ladrões”, um filme que se deita nessas intercorrências óbvias, mas que consegue, vez ou outra, sobrepujar clichês e proporcionar minutos de boa diversão.

“Jogo Entre Ladrões” conta a história de dois assaltantes de alto nível que resolvem se juntar para realizar um grande roubo, o maior de suas carreiras. Porém, no percurso, Jack Monahan (Antonio Banderas) envolve-se com uma misteriosa advogada, enquanto Ripley (Morgan Freeman) tenta exorcizar problemas do passado.

Somos apresentados a dois tipos distintos de personagens. Enquanto Freeman faz do seu Ripley um homem elegante, sutil e eficiente, Banderas mostra um Jack impulsivo e humano. Aliás, nota-se mais uma vez que ambos são bons atores, mas que se escoram numa zona de conforto que aparentemente traz eficiência, mas que no final das contas é apenas uma parede de sustentação de limitações técnicas. Se tirarmos Freeman desse filme e colocarmos, exatamente o mesmo personagem, em “O Procurado”, ninguém sentirá diferença. E cito apenas um filme recente do veterano, mas que pode se aplicar a diversas outras atuações. E assim é também que Antonio Banderas, o ator que surgiu como muso de Almodóvar, mas que caiu nas garras de Hollywood. O personagem que ele faz é o mesmo de tantos outros, embora – eu reitero – isso não signifique que os dois sejam ruins.

Na história, os russos sãos os vilões aparentemente, mas que revelam-se mais aliados dos policiais corruptos de NY do que outra coisa. Essa história paralela nem é muito explorada, demonstrando que o filme não quis abordar a mesma dicotomia Rússia e EUA mais uma vez, já que o tema é bastante saturado. A narrativa resolve explorar mais a relação entre os dois ladrões e é aí que o filme acerta. Ao mostrar Jack impulsivo e desajeitado, o diretor consegue deixar Freeman à vontade para fazer do seu Ripley quase que uma antítese do colega de profissão. É uma boa escolha, visto que “Jogo Entre Ladrões” não se atém somente à dinâmica do roubo e suas mirabolantes teses de assalto, e sim joga luz sobre uma interessante relação humana.

No entanto, o desenrolar dos acontecimentos cai novamente nos velhos clichês de filmes de assalto. Tudo bem, não em todos, mas em muito deles. Temos lá o policial que é impedido de investigar o caso e é obcecado pelo ladrão, a mocinha que torna-se um impedimento a certas ações, as reviravoltas mirabolantes e, principalmente, um final surpreendente. O bom de “Jogo Entre Ladrões” é que o final surpreendente realmente surpreende, mesmo que você já espere por isso.

P.S. [spoiler]: perceba que o argumento de “Jogo Entre Ladrões” é praticamente o mesmo de “Nove Rainhas”, filme argentino de 2000, que foi refilmado por Hollywood em 2004 como “171”. O encontro dos ladrões, o desenvolvimento da história inclusive com uma mulher da família de um se relacionando com o outro, o comprador e o golpe final. É muito parecido.

Crítica – Pagando Bem, Que Mal Tem (2008)

27, março, 2009 admin 6 comentários

nota06

direção: Kevin Smith
elenco: Seth Rogen, Elizabeth Banks
país: EUA
gênero: comédia
ano: 2008
Título Original: Zack and Mirri Make a Porno

Ao falar sobre “Pagando Bem, Que Mal Tem” é inevitável não lembrar do recente (já clássico para muitos) “Rebobine, Por Favor” por sua temática de realização de filmes improvisados, embora a comparação não seja tão favorável a esse novo filme de Kevin Smith. Cultuado por filmes nerds de comédia, Smith lança seu novo trabalho mirando as piadas relacionadas a sexo e escatologia, com alguns êxitos e outros tantos equívocos.

“Pagando Bem, Que Mal Tem” é a história do casal de amigos Zach (Seth Rogenn) e Mirri (Elizabeth Banks), inseparáveis desde a infância e que na vida adulta dividem a casa e as contas a pagar. Endividados e na bancarrota, os dois resolvem então apelar e fazer um filme pornô estrelado por eles mesmos para tentar arrecadar dinheiro.

O título em inglês (Zach and Mirri Make a Porno), na verdade, entrega de forma errônea qual o real objetivo do filme. Em alguns momentos somos apresentados a histórias mirabolantes e situações esdrúxulas para que os dois protagonistas cheguem ao ponto de terem que realmente apelar para o último recurso, que é o tal filme pornô. O lado positivo, que aqui se assemelha bastante ao já citado “Rebobine, Por Favor”, é a sátira imposta por Kevin Smith a filmes, nesse caso, à indústria dos filmes pornô com títulos bizarros e histórias mais bizarras ainda. O filme, portanto, consegue chegar bem até aqui, mas parece patinar a partir da metade.

Ao pintar um quadro de amizade mútua quase que incondicional – os dois não têm pudor ao verem um ao outro na privada ou nus, por exemplo -, o roteiro prepara a narrativa para um caminho que não se concretiza. No meio do filme somos apresentados a uma outra história, essa sim mais próxima de títulos de comédia romântica, com conflitos previsíveis, beijos roubados, coincidências e desencontros amorosos. É uma pena, aliás, ver que a temática da sátira dos pornôs não vá muito à frente, visto que, quando somos apresentados a piadas do universo pornográfico, Smith parece conduzir muito bem o longa.

É justamente nessa parte que o filme se sustenta. As referências pop de Kevin Smith já são consagradas, mas agora ele se associa a um nome que parece ganhar força na comédia nerd de Hollywood: Seth Rogen (que faz o policial em Superbad). Gordo e desajeitado, ele consegue fazer bem o papel do cara de quase 30 anos que ainda não realizou nada na vida. Em “Pagando Bem, Que Mal Tem” ele é assim, repetindo um pouco do papel realizado no bom “Ligeiramente Grávidos”. Rogen consegue estabelecer uma excelente dinâmica com Banks, fato indispensável para o bom andamento do filme. Nas referências de outros personagens, porém, a tal dinâmica é irregular, oscilando entre sacadas inteligentes e outras totalmente dispensáveis – aquela cena em que um determinado personagem cita Lost é fora de hora e sem a mínima relevância, talvez na tentativa de inserir mais uma referência para ser detectada pelos fãs.

Ao final da projeção, fica a impressão de que Smith tentou voltar à velha forma de outros clássicos nerds, como “O Balconista”, mas que esbarrou na tentativa de dar um tom mais suave à sua obra. No entanto, enquanto esteve na trama da elaboração do filme em si, “Pagando Bem, Que Mal Tem” se manteve firme em sua narrativa não-usual e divertida.