Caetano Veloso quer mudar a música brasileira… De novo?

Caetano e a banda Cê: futuro promissor
Caê é vanguarda e disso ninguém pode duvidar. É verdade também que há anos o baiano figura no ostracismo da música popular brasileira, lançando músicas sem relevância e/ou álbuns ao vivo, quase sempre com releituras requentadas de antigos sucessos.
Mas ele quer mudar, a si e a música brasileira. É por isso que ele lançou, há três anos, o elogiado “Cê” e em 2009 lança no mercado fonográfico brasileiro “Zii & Zie”, um disco simples e direto que reúne em ótimas músicas e pouca invencionice. Calma, Caê é um cara chato, e disso também ninguém duvida. Por esse motivo, alguns momentos do disco são meramente masturbação musical do compositor baiano, assim como ele fez em (quase) toda sua carreira. Mas não. Não é algo fora de moda. Caê está dando sinais de que novamente está na linha de frente das mudanças da música brasileira.
Começa pela banda. De forma enxuta, os músicos já o acompanham desde “Cê” (2006), que deu muito certo e foi mantido agora nesse novo trabalho. As novas canções são chamadas pelo próprio como “transambas”. Tá bom. Afora esse invencionismo desnecessário, os tais “transambas”dão o recado: sem os instrumentos usuais de samba (pandeiro, cavaquinho, tamborim, etc.), Caetano consegue fazer sambas de alta qualidade, aliando a ótima guitarra de Pedro Sá com os outros instrumentistas, Marcelo Callado (bateria) e Ricardo Dias Gomes (baixo). Nas letras, Caetano continua ácido, sublime e atualizado. Revela um lado bastante pessoal de temas recorrentes na contemporaneidade, além de falar de amor, paixão e outros temas já comuns à sua carreira.
“Zii & Zie” é um disco que aponta para um rumo interessante, muito longe dos ‘picolés de chuchu’ da música nacional, como Ana Carolina, Djavan, Jorge Vercilo e muitos outros. Esses três, membros de uma sociedade secreta que tem como objetivo matar a criatividade da música popular brasileira, devem se mirar no exemplo do velho Caê: com uma carreira já consolidada, o baiano teve culhão suficiente para abandonar uma zona de conforto e tentar levar à frente velhos conceitos musicais repaginados, assim como ele próprio já fez de maneira brilhante 40 anos atrás. É uma veia, uma característica importante do compositor baiano, de mudar e tentar dar novo fôlego à música feita no Brasil.
O que é então essa nova fase de Caetano Veloso? É um passo importante para o futuro da música brasileira, que inclusive já vem sendo dado há anos por outros artistas, mas que ganha um reforço de peso. Nomes como Los Hermanos, Nação Zumbi, Céu, Lenine, Mombojó, Curumin e tantos outros já conseguem dar uma cara mais mudada à música brasileira. A relevância desses nomes não deve ser medida na vendagem de Cds (o que é isso mesmo?), mas sim no seu alcance. E Caetano, vanguardista que é, está nessa linha. Não vai fugir. Vai entrando de mansinho para, talvez, liderar esse grupo. Fôlego? De sobra!
Não deixe de ver – Caetano lançou seu CD num cenário inusitado. Durante quase um ano, ele compartilhou idéias, posts, comentários, letras e versões inéditas das músicas com os internautas através de seu blog, Obra em Progresso. Essa interação pode ser sentida nas canções do disco, que tem muito dessa relação mutante. “Zii & Zie” é resultado desse link, um bom norte para outras bandas e artistas seguirem também.
Café com Pop é uma produção do jornalista baiano Rodrigo Carreiro, 25 anos, atento ao mundo da música e apaixonado pelo cinema. No cardápio, comentários, notícias, vídeos, sons, fotos e tudo quanto é coisa pop que possa vir acompanhado de um bom e velho cafezinho.













