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Crítica de Filme – Coração Louco (2009)

5, abril, 2010 admin 5 comentários
Embora tenha inúmeros acertos, é impossível dissociar o êxito de “Coração Louco” da atuação irreparável de Jeff Bridges. Adotando uma postura única, mas que reflete a trajetória de diversos artistas ao redor do mundo, o filme consegue criar uma ótima história em seu componente humano.
“Coração Louco” é a história de Bad Blake (Jeff Bridges), um velho cantor de country que roda os EUA tocando em locais decadentes, transando com mulheres duvidosas e bebendo muito. Vê sua trajetória mudar ao conhecer a jornalista Jean (Maggie Gyllenhall) e reencontrar o antigo parceiro Tommy Sweet (Collin Farell).
Basta ver o trailer de “Coração Louco” pra perceber uma semelhança óbvia com outro longa, “O Lutador”. A comparação me parece inevitável, ainda mais que o intervalo entre o lançamento de um e do outro aqui no Brasil foi de apenas um ano. Os dois tem sua trama baseada na trajetória de auto-conhecimento e mudança de um homem. Não que essa mudança seja da água para o vinho; de forma alguma, mas apenas ambos passam de um estado de acomodação e aceitação da vida para um estado de questionamento pessoal. Micley Rourke é fenomenal em seu filme, assim como Bridges, e ambos conseguem pontuar de forma brilhante as nuances de seus personagens. Não vou me alongar mais nesse assunto, mas você pode ler aqui a crítica de “O Lutador”.
Aqui, Bridges é o cantor em decadência, o trapo humano que percorre as estradas americanas e bebe um gole de uísque a cada intervalo de uma baforada de cigarro. A personificação em decadência, ainda mais quando o vemos chegar aos locais toscos em que toca: salão de boliche, botecos etc. No entanto, essa é apenas uma faceta do homem, já que num passado longíquo ele já fez muito sucesso. Gastou tudo em mulheres e bebida, e vive um momento de total entrega a esse universo. Asituação só muda quando ele enfrenta dois fatos: conhece uma bela e sedutora jornalista, Jean, muitos anos mais jovem que ele; e reencontra o antigo amigo e também cantor Tommy, o qual ainda insiste em formar parceria com ele.
Bridges encarna o verdadeiro Bad Blake, um badass de verdade. Rouco, de andar trôpego, bêbado e pronto para qualquer parada. Típico dos bares de beira de estrada dos EUA. É o espaço perfeito para Bridges expor seu talento, criando um personagem único e ao mesmo tempo uma síntese de “rock stars” (no sentigo clichê da palavra: sexo, drogas e rock n roll) do mundo todo. Ele não fala, grune. Não anda, rasteja. Não canta, encanta. É assim o mundo de Blake: de bar em bar, tocando sempre para públicos decantes suas antigas músicas de sucesso. Na direção, Scott Cooper faz o trabalho mais óbvio do mundo: prepara a tela para o grande astro brilhar: Jeff Bridges. Não há muito o que fazer, basta ligar a câmera e deixar que a trama e Bad falem por si só.
O roteiro é bem simples e explora essas duas questões na vida de Bad – embora outra apareça durante o filme, mas não seja explorada: o caso amoroso com Jean e a parceria com Tommy. Na primeira situação, ambos estão em momentos parecidos da vida, ocasião que torna o destino a explicação perfeita para o encontro. A jornalista que vira a amante, o artista que vira amante. Maggie é uma atriz no máximo esforçada e não consegue acompanhar o tom dramático do filme. Uma pena. Já Collin Farell simplesmente resolve largar de mão e faz de Tommy um tipo parecido com ele próprio: famoso, desligado e preocupado com o futuro (financeiro) de sua carreira. Nada muito distante do mundo glamuroso de Hollywood. E Bad, claro, costura sua vida pré-60 anos dividido entre essas duas questões: o amor de Jean e a parceira com Tommy.
É essa simplicidade, portanto, que faz com que a trama siga seu rumo natural. É até compreensível que já saibamos como a história vai se desenrolar – e isso não parece ser um problema. O que importa está ali: a história de um homem em busca de sua própria identidade, perdida em meio a acontecimentos que ele julgava como naturais. E, claro, um astro em sua atuação plena.

nota091

direção: Scott Cooper
elenco: Jeff Bridges, Maggie Gyllenhall, Robert Duvall, Collin Farell
país: EUA
gênero: drama
ano: 2009
título original: Crazy Heart

Embora tenha inúmeros acertos, é impossível dissociar o êxito de “Coração Louco” da atuação irreparável de Jeff Bridges. Adotando uma postura única, mas que reflete a trajetória de diversos artistas ao redor do mundo, o filme consegue criar uma ótima história em seu componente humano.

“Coração Louco” é a história de Bad Blake (Jeff Bridges), um velho cantor de country que roda os EUA tocando em locais decadentes, transando com mulheres duvidosas e bebendo muito. Vê sua trajetória mudar ao conhecer a jornalista Jean (Maggie Gyllenhall) e reencontrar o antigo parceiro Tommy Sweet (Collin Farell).

Basta ver o trailer de “Coração Louco” pra perceber uma semelhança óbvia com outro longa, “O Lutador”. A comparação me parece inevitável, ainda mais que o intervalo entre o lançamento de um e do outro aqui no Brasil foi de apenas um ano. Os dois tem sua trama baseada na trajetória de auto-conhecimento e mudança de um homem. Não que essa mudança seja da água para o vinho; de forma alguma, mas apenas ambos passam de um estado de acomodação e aceitação da vida para um estado de questionamento pessoal. Micley Rourke é fenomenal em seu filme, assim como Bridges, e ambos conseguem pontuar de forma brilhante as nuances de seus personagens. Não vou me alongar mais nesse assunto, mas você pode ler aqui a crítica de “O Lutador”.

Aqui, Bridges é o cantor em decadência, o trapo humano que percorre as estradas americanas e bebe um gole de uísque a cada intervalo de uma baforada de cigarro. A personificação em decadência, ainda mais quando o vemos chegar aos locais toscos em que toca: salão de boliche, botecos etc. No entanto, essa é apenas uma faceta do homem, já que num passado longíquo ele já fez muito sucesso. Gastou tudo em mulheres e bebida, e vive um momento de total entrega a esse universo. Asituação só muda quando ele enfrenta dois fatos: conhece uma bela e sedutora jornalista, Jean, muitos anos mais jovem que ele; e reencontra o antigo amigo e também cantor Tommy, o qual ainda insiste em formar parceria com ele.

Bridges encarna o verdadeiro Bad Blake, um badass de verdade. Rouco, de andar trôpego, bêbado e pronto para qualquer parada. Típico dos bares de beira de estrada dos EUA. É o espaço perfeito para Bridges expor seu talento, criando um personagem único e ao mesmo tempo uma síntese de “rock stars” (no sentigo clichê da palavra: sexo, drogas e rock n roll) do mundo todo. Ele não fala, grune. Não anda, rasteja. Não canta, encanta. É assim o mundo de Blake: de bar em bar, tocando sempre para públicos decantes suas antigas músicas de sucesso. Na direção, Scott Cooper faz o trabalho mais óbvio do mundo: prepara a tela para o grande astro brilhar: Jeff Bridges. Não há muito o que fazer, basta ligar a câmera e deixar que a trama e Bad falem por si só.

O roteiro é bem simples e explora essas duas questões na vida de Bad – embora outra apareça durante o filme, mas não seja explorada: o caso amoroso com Jean e a parceria com Tommy. Na primeira situação, ambos estão em momentos parecidos da vida, ocasião que torna o destino a explicação perfeita para o encontro. A jornalista que vira a amante, o artista que vira amante. Maggie é uma atriz no máximo esforçada e não consegue acompanhar o tom dramático do filme. Uma pena. Já Collin Farell simplesmente resolve largar de mão e faz de Tommy um tipo parecido com ele próprio: famoso, desligado e preocupado com o futuro (financeiro) de sua carreira. Nada muito distante do mundo glamuroso de Hollywood. E Bad, claro, costura sua vida pré-60 anos dividido entre essas duas questões: o amor de Jean e a parceira com Tommy.

É essa simplicidade, portanto, que faz com que a trama siga seu rumo natural. É até compreensível que já saibamos como a história vai se desenrolar – e isso não parece ser um problema. O que importa está ali: a história de um homem em busca de sua própria identidade, perdida em meio a acontecimentos que ele julgava como naturais. E, claro, um astro em sua atuação plena.

Crítica de Filme – Um Sonho Possível (2009)

22, março, 2010 admin 7 comentários

nota05

direção: John Lee Hancock
elenco: Sandra Bullock, Quinton Aaron, Tim McGraw
país: EUA
gênero: drama
ano: 2009
título original: The Blind Side

Em vários momentos de “Um Sonho Possível”, o espectador é jogado para fora do cinema. A sensação é de já termos visto aquilo mais de uma vez, muito embora possa ser difícil lembrar em qual situação. Mas sim, filmes iguais a ele temos aos montes.

“Um Sonho Possível” é a história do jovem Michael Oher (Quinton Aaron), negro, pobre e desabrigado que muda de vida quando uma família, comandada por Leigh Anne (Sandra Bullock), passa a ajudá-lo na educação e com grandes lições de vida.

A trama desse filme passa longe de qualquer originalidade. É bom, aliás, diferenciar história de trama. A história de Michael é espetacular, de superação, humana, viva. Aconteceu de verdade, talvez se te contassem num bate papo rápido você nem acreditasse. Mas, para o cinema, é preciso ter uma narrativa, uma trama bem desenhada – e é principalmente nesse aspecto que “Um Sonho Possível” escorrega. O diretor e roteirista John Lee Hancock aposta nos mais aclamados clichês do gênero: homem pobre e preconceitos na escola, garoto gigante fisicamente e com coração “de ouro”, reviravoltas etc etc. É um recorte do que Hollywood produziu de mais clichê em filmes de superação.

Michael é o menino pobre da periferia que muda de vida quando uma mulher resolve ajudá-lo. Só que, em momento algum, somos avisados do motivo pelo qual uma mulher resolve ajudar um garoto sem paradeiro, sem família, sem roupas, sem nada. Porque ela fez? Culpa? De quê? Pura solidariedade? Ninguém sabe. Aí fica difícil do espectador se projetar nela. Claro, pessoas costumam se sensibilizar por outras de menor nível social, mas daí a botar o garoto em casa e dar de tudo é demais. Tem que ter algo mais. Sandra Bullock faz uma decoradora normal, sem grandes sobressaltos, sem grandes invencionices e convence até certo ponto. Não ultrapassa o limiar da boa atuação.

Por outro lado, Quinton Aaron como o garoto Michael consegue entrar no personagem e convence muito bem como o menino pobre que tentar superar todos os problemas possíveis de um adolescente: drogas, falta dos pais, má educação, dentre outros. Apesar disso, por dentro da casca de um enorme garoto, está um menino sensível e avesso à violência. O problema é que Hancock retrata isso com cenas descartáveis, diálogos superficiais e pouca criatividade. O envolvimento de Michael só é eficiente mesmo com os filhos de Leigh Anne, SJ e Collings, em que conseguem manter uma boa relação de irmandade e compaixão mútua.

A condução da história e a trajetória bem sucedida de Michael segue seu caminho, sempre nos mostrando lições interessantes de vida, de superação, porém mais pela força que a própria história tem do que pela trama que é vista na tela.

Crítica de Filme – Preciosa (2009)

22, fevereiro, 2010 admin 7 comentários

nota07

direção: Lee Daniels
elenco: Gabourey Sidibe, Mo´Nique, Mariah Carey, Paula Patton
país: EUA
gênero: drama
ano: 2009
título original: Precious

2010 parece ser o ano marcado pelas trajetórias individuais de superação. Temos o garoto Michael de “Um Sonho Possível”, Nelson Mandela em “Invictus” e Clareece em “Preciosa”. Todos têm em comum, além de serem negros, a mudança de realidade através da ajuda de terceiros. “Preciosa” segue o mesmo caminho, embora com características bem peculiares.

O filme conta a história da garota Clareece Precious (Gabourey Sidibe), 16 anos, grávida do seu segundo filho e constantemente abusada verbalmente pela mãe e sexualmente pelo pai.

A temática do filme já é bastante pesada. Pensar numa garota monstruosamente gorda, negra, pobre e moradora do subúrbio americano já é pensar em diversos problemas sociais. Impressionamos-nos mais ainda quando vemos em cena Sidibe como a protagonista, com cara de poucos amigos, mas ao mesmo tempo de uma infantilidade que não condiz com sua condição de mãe. É o contraponto e a realidade que nós do Brasil conhecemos bem: preta, pobre e sem perspectivas de vida, o que fazer então para continuar vivendo?

A própria Precious já pensou na morte – e quem não pensaria? A realidade desgraçada dela ainda é pior se analisada à luz de sua relação materna. A mãe da protagonista é interpretada com assustadora realidade pela comediante Mo´Nique, uma atuação que rouba todos os holofotes. É nela que vemos refletida um sistema social e econômico bárbaro, a personificação de todos os erros do capitalismo. O ambiente em que Precious vive, portanto, é o pior possível. Na escola, ela não encontra nada. Na rua, só desprezo e solidão. Em casa, só o que salva são seus sonhos e a televisão.

Para tentar suavizar toda essa camada grossa de crueldade, o diretor Lee Daniels apostou em contrapontos de cena, ou seja, ao mostrar alguma coisa ruim que acontece com Precious, ele mostra ao mesmo tempo os sonhos da garota. Por um lado funciona, mas como isso se repete inúmeras vezes, torna-se um recurso enfadonho e cansa espectador. A “suavizada” de Daniels funciona, porém, quando estamos diante da relação entre Precious e Sra. Rain, a professora interpretada por Paula Patton. Ela se sai muito bem, não parece se esforçar para demonstrar carinho nem eficiência em seu posto de mentora para a jovem.

O roteiro escorrega em alguns momentos e passa a explorar em demasia diálogos que não vão a lugar algum. Assim a história fica um pouco chata, repetitiva, pois os acontecimentos simplesmente não se desenrolam. Repare nos diálogos com a assistente social interpretada por Mariah Carey. Elas conversam, falam, dialogam e nada. O “nada” vai a “lugar algum”. Somente no final, na última cena, Carey mostra a que veio. Mesmo assim, ela força muito a barra para conseguir dar uma clareza e realidade à sua personagem – e o pior é quando ela é posta na mesma cena que Mo´nique, justo a cena que dará o Oscar à atriz.

Mesmo com um desfecho coerente e esperançoso – depois de tanta realidade nua e crua, o que esperar, não é verdade? -, a impressão muitas vezes é que estamos diante de um programa de Oprah Winfrey. Com depoimentos longos e choros descompensados, “Preciosa” flui, em diversos momentos, como se estivéssemos vendo uma das milhares de entrevistas sensacionalistas da estrela da TV americana. Ainda bem que é só em alguns instantes.

Crítica de Filme – Guerra ao Terror (2009)

19, fevereiro, 2010 admin 16 comentários

nota091

direção: Kathryn Bigelow
elenco: Jeremy Renner, Anthony Mackie, Brian Geraghty, Ralph Fiennes, Guy Pierce
país: EUA
gênero: guerra/drama
ano: 2009
título original: The Hurt Locker

É difícil imaginar o porquê de “Guerra ao Terror” ter passado direto para DVD no Brasil. Tenso e extremamente eficiente em seu encadeamento narrativo, o filme desperta grande curiosidade ao explorar a profundidade de sentimentos e impressões de homens por trás das roupas de guerra.

O filme segue a rotina diária de um pelotão anti-bombas do exército americano no Iraque, mostrando suas relações pessoais, convicções e sonhos.

Numa análise geral, dificilmente alguém conseguirá apontar um protagonista. Em “Guerra ao Terror”, o protagonista é o soldado médio americano, aquele que passa as noites ouvindo rock n roll nas alturas para durante o dia desarmar bombas como se estivesse consertando a tomada quebrada de casa. Aliás, estava faltando alguém com coragem, como a diretora Kathryn Bigelow e o roteirista Mark Boal, para levar à frente uma história tão humana. Nós nos sensibilizamos com aqueles homens, muito embora sejamos totalmente contra a guerra.

Curioso até que a primeira cena do filme seja de um robô, um excelente contraponto de reflexão para o público. O longa investiga a condição humana levada ao extremo em situação de guerra, momentos realmente tensos. Como Bigelow usa pouca trilha sonora, a tensão fica a cargo unicamente do que vemos na tela, sem grandes explosões ou perseguições, mas sim com uma investigação particular dos homens. Will James (Jeremy Renner), Sanborn (Anthony Mackie) e Eldridge (Brian Geraghty) são os homens, os soldados a serviço de uma guerra que para nós pode parecer sem sentido, mas que para eles, por algum motivo – e cada um tem o seu -, aquilo tudo faz sentido.

O roteiro de Boal deixa de lado qualquer pretensão de discussão política ou conchavos entre altos coronéis. Isso praticamente não existe e somos apresentados, por exemplo, à estreita relação entre James e o garoto Beckham, um iraquiano que vende DVD na porta do pelotão e que, de alguma forma, desperta interesse no soldado. Temos ainda Sanborn e seu fiel serviço aos EUA, mesmo que em diversos momentos ele até questione o porquê de tudo aquilo e, caso morra, quem irá chorar em seu funeral. Já Eldridge parece o mais desequilibrado, muito jovem e com todas as desconfianças possíveis do mundo na cabeça.

Com essas três pontas, “Guerra ao Terror” traça um perfil detalhado de quem está na guerra: solitário, tenso e desesperado – por mais que os personagens demonstrem o contrário. Mesmo assim, a diretora ainda consegue mostrar cenas de guerra com extrema eficiência. Os momentos em que James vai desarmar bombas é sempre tenso: você nunca sabe o que realmente vai acontecer. Ele vai morrer? Possível. Ele vai sobreviver? Muito possível também. E aquela troca de tiros no meio do deserto é de um suspense incrível, um momento inclusive que é utilizado para aproximar Sanborn e James.

O único aspecto estranho é a conclusão da história. Tudo tem a ver com a frase de epílogo que aparece no começo do filme, que seria a justificativa para o desfecho da história. Talvez sem a frase não entendêssemos a escolha final do personagem, mas mesmo com a tal explicação tudo soa um pouco estranho. O que o soldado fez é aceitável?

Brasil está fora do Oscar… E daí?

21, janeiro, 2010 admin 4 comentários

Como todos sabem, mais uma vez o Brasil ficou fora da corrida pelo tão sonhado Oscar de melhor filme estrangeiro. Perdemos a disputa para outros bons filmes (Teta Assustada, por exemplo), mas também não levamos um grande concorrente. Mas… E daí? O Oscar é tão importante assim para a indústria cinematográfica brasileira?

Não, não é. Hoje, no estágio de produção em que estamos, o Oscar seria mais um prêmio; só renderia uns milhões a mais para alguns poucos produtores em contratos futuros. Na prática, na “luta diária” por espaço na tão conturbada cena local, o prêmio americano não ajuda ninguém, fora o fato de que ele, em si, não garante qualidade alguma.

Houve um tempo em que ganhar um Oscar de filme estrangeiro ajudava muito. Era a época de poucos filmes, produção em baixa e um cinema nacional totalmente desacreditado. Muitos de vocês devem ter vivido isso lá pelos meados dos anos de 1990, mas foi com bastante competência que Central do Brasil rompeu o marasmo. Um filme humano, simples e com atuações espetaculares. Tocou o mundo, tocou o Brasil de dimensões territoriais e sociais desproporcionais. Naquele momento um Oscar era mais do que bem vindo, era praticamente necessário. Seria a vitrine mundial. Como todos sabem, não ganhamos nada, mas os olhos do mundo se voltaram para cá. Mais dinheiro, mais distribuição e muito mais cinema sendo feito em terras tupiniquins.

Sobre a tal “retomada” todos já conhecem a história. Nossa produção cresceu em tamanho e qualidade (há uma crítica imensa, errônea a meu ver, sobre o padrão de filme nacional atual, mas isso é papo pra outro post). Na época de Cidade de Deus (2002), também houve um clamor geral pelo prêmio, mas nada ocorreu. E nosso cinema continuou crescendo, atores brasileiros foram pra fora e diretores, como Walter Salles e Fernando Meireles, ganharam seu espaço.

O problema do Oscar de filme estrangeiro é a indicação. O Brasil indica. E quem seria o “Brasil”? O ministério da cultura, que tem mais preocupações comerciais que qualquer outra coisa. A indicação sempre é feita pensando na possibilidade real de vencer, e não na qualidade do filme. Essa postura rendeu, por exemplo, a aberração de não ter indicado Tropa de Elite, mas sugerir O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (2007) – um bom filme, mas que não passa disso. A intenção é apenas ganhar? E daí?

Crítica de Filme – Os Falsários (2007)

15, junho, 2009 admin 2 comentários

nota091

direção: Stefan Ruzowitzky
elenco: Karl Markovics, August Diehl, Devid Striesow
país: Áustria/Alemanha
gênero: drama
ano: 2007
título original: Die Fälscher

O ano de 2009 parece ter sido reservado para filmes dando novo olhar à Segunda Guerra. De conflitos pessoais de “O Leitor” à inocência infantil em “O Menino do Pijama Listrado”, o tema rende agora um ótimo exemplar que discute escolhas individuais e seu impacto no coletivo, com o ótimo e bem dirigido “Os Falsários”.

O filme segue a história do falsificador bom vivant multi-facetado Salomon ‘Sally’ Sorowitsch (Karl Markovics), que vivem na Alemanha e falsifica de tudo. Preso, ele segue direto para campos de concentração da Alemanha nazista, passando a  integrar, junto com outros prisioneiros, como Adolf Burger (August Diehl), uma divisão de falsificação do regime.

O trunfo de “Os Falsários” é ser ao mesmo tempo denso e suave, uma característica muito difícil de se alcançar em histórias desse tipo. A temática Segunda Guerra, na verdade, parece que só funciona no cinema hoje em dia se tocar em feridas ainda encobertas, ou então em assuntos obscuros, como é o caso do longa em questão. “Os Falsários” é uma história real, escrita por Berg, único personagem que manteve o nome original. Criando uma teia concisa e sóbria, o diretor Stefan Ruzowitzky explora bem o tema real e o pano de fundo que é a guerra, e não abusa em momento algum o drama dos judeus em vão ou então os campos de concentração, altamente explorado em dezenas de filmes.

A narrativa é, portanto, envolvente por si só. O impacto inicial que o público toma é visto quando, logo aos 5 minutos, passamos do final da história para o começo, dando um contraste impactante, que vai ser importantíssimo para a fruição do filme. O diretor Ruzowitzky não é em momento nenhum maniqueísta em relação aos próprios prisioneiros, já que, sendo judeus, são obrigados a trabalhar para aumentar a fortuna do partido nazista e financiar uma guerra contra os próprios judeus. É esse conflito interno que vai permear toda a história, isto é, de que adianta trabalhar forçado para o regime se é justamente esse trabalho que vai salvar os nazistas? O trabalho em questão é a falsificação de dinheiro.

A construção desse conflito é bem recortado com a história de alguns personagens judeus e outros nazistas. A dualidade interna dos prisioneiros é ainda mais evidente nas relações de cada um. Tem gente ali com a família inteira morta, outros que ainda têm esperança em reencontrá-los e alguns, como Sally, que não têm nada a perder. O protagonista passa a ser o chefe da divisão e suas atitudes impactam diretamente no funcionamento do Projeto nazista e em como os outros vão (ou não) ajudar a levar pra frente a idéia. MArkovics faz um Solomon de maneira magnífica, encarnando um homem dúbio e misterioso, que tem um código de conduta próprio, mas que não poupa esforços em ajudar seus amigos, mesmo quando está em situação delicada.

O tema, que aparentemente é denso demais, tem algumas peculiaridades que o tornam mais “leve”, se é que isso é possível. O ponto chave para que isso aconteça é a dinâmica do roteiro, que somente perto do final demora alguns minutos a mais em cenas desnecessárias, mas que volta logo ao ritmo de antes. A conclusão, por sua vez, é bem irônica e reforça ainda mais a idéia de dualidade que qualquer ser humano vive e, mesmo sofridos por um regime imbecil e desumano, os judeus também não ficam de fora. A frase que encerra “Os Falsários” é claro nisso e dá o fechamento ideal, sem ser piegas ou repetitivo.

P.S.: “Os Falsários” é o ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2008, mas só agora, em junho de 2009, chega às telas brasileiras.