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Crítica de Filme – Nine (2009)

29, janeiro, 2010 admin 7 comentários

nota07

direção: Rob Marshall
elenco: Daniel Day-Lewis, Penélope Cruz, Marion Cotillard, Fergie, Kate Hudson, Judi Dench, Nicole Kidman
país: EUA
gênero: musical/drama
ano: 2009

Em sua concepção geral, “Nine” não é um filme de gênero apenas, com seus passos bem definidos e números arranjados. É, mais do que isso, um drama profundo que investe suas fichas num personagem, Guido Contini, e deixa todo resto lhe servir.

“Nine” é a história a adaptada do clássico filme de Frederico Fellini, “Oito e Meio”, em que o famoso cineasta Guido Contini (Daniel Day-Lewis) passa por uma crise de criatividade para realizar seu próximo filme, o que o leva a lidar com amores e desabores.

Caro leitor, me desculpe a intromissão, mas devo dizer que o maior erro que você pode cometer ao ir ver “Nine” é pensar nas musas do elenco: Kate Hudson, Fergie, Penélope Cruz e Nicole Kidman. Elas estão lá, lindas é verdade, mas são apenas “serventes” do grande astro que é Daniel Day-Lewis. Ele comanda as cenas, impera dramaticamente diante de qualquer outro personagem, domina seu cineasta em crise com maestria dos melhores atores de Hollywood. É uma imersão completa na vida e trejeitos do personagem. Se este realmente existisse, com certeza não seria tão perfeito.

A história é um drama fortíssimo, antes mesmo de ser um musical. Esse gênero, obviamente, é bastante presente. Em seu conceito, o diretor Rob Marshall resolveu padronizar a estética dos números musicais com um propósito claro: mostrá-los apenas como divagações de Guido Contini, sejam metáforas expansivas de sua mente ou simplesmente lembranças de sua infância. Não veremos personagens loucos dançando no meio da rua, passos mirabolantes entre carros e transeuntes ou coisa parecida. Até por isso – e muita gente criticou Marshall por esse fato – “Nine” só tenha a parte do musical em um único cenário, justamente o galpão de cenário que Contini prepara para seu novo filme.

O roteiro explora com profundidade a mente do cineasta, suas predileções ao amor por duas belas mulheres, seus encantos, seu charme, motivações e problemas na infância. Somos apresentados a um personagem rico dramaticamente, o que é bastante interessante para entendermos o porquê de suas ações. Ele é charmoso, mas é mimado. Ele é talentoso, mas é preguiçoso. E, principalmente, sofre na mão de mulheres charmosas e intrigantes, como é o caso de Carla (Penélope Cruz) e Luisa (Marion Cotillard). Nicole Kidman faz um papel importante, da atriz-musa de Contini, mas uma participação breve. Já Sophia Loren dá as caras como a mãe do cineasta, e Fergie como uma “musa” do Contini criança. Até Judi Dench empolga, como a leal figurinista. Kate Hudson faz… bem, ela não é importante.

Claro, num filme de gênero musical, as danças e músicas têm papel importante. Todos os números são bastante coesos e apresentam apenas um personagem cantando, dominando a cena. Por isso todos eles têm importância quase igual na parte musical, um problema para “Nine” quando, por exemplo, Kate Hudson entra em cena e estraga tudo. Sua parte é a pior de todas, uma música chata e forçando a barra no idioma*. Os outros conseguem se sair bem, com especial competência do próprio Day-Lewis e Penélope Cruz, numa dança sensual arrasadora. A melhor, no entanto, é Fergie, que canta num número empolgante, cheia de charme e coreografia bem afiada.

* o idioma é um aspecto que realmente me deixou bastante irritado em “Nine”. O filme é todo passado na Itália, os personagens em sua maioria são italianos… E ele é todo falado em inglês! Como pode? Claro, a produção é americana, mas aí eu indago: e daí? Eu, espectador, tenho o quê com isso? Quero saborear o filme em todas suas nuances. Se quisesse falar em inglês, que adaptasse a obra para Nova York ou qualquer outro lugar do mundo onde se fala inglês. O pior: tem cenas em que os personagens falam italiano, misturam as duas línguas… Uma orgia lingüística. Não dá. Por isso não dei uma nota maior.

Crítida de Filme – Abraços Partidos (2009)

7, dezembro, 2009 admin 2 comentários

nota091

direção: Pedro Almodóvar
elenco: Penélope Cruz, Lluis Homar, Blanca Portillo, José Luiz Gómez
país: Espanha
gênero: drama
ano: 2009
Título Original: Los Abrazos Rotos

É sempre bom ver quando grandes cineastas se reinventam. Melhor que isso é poder acompanhar um filme em que um grande cineasta, no caso, o aclamado Pedro Almodóvar, consegue esse feito se utilizando de referências de seus próprios filmes, de outros e jogando luz sobre sua própria arte: o cinema.

“Abraços Partidos” conta a história do cineasta Mateo/Harry (Lluis Homar) e da bela atriz Lena (Penélope Cruz), que se envolvem após ela se casar com um figurão e conseguir um papel no filme realizado por Mateo/Harry.

De certa forma, “Abraços Partidos” guarda muitas semelhanças com os últimos trabalhos do diretor, mas aqui há uma diferença marcante: Almodóvar se volta para tentar entender os sentimentos e motivações amorosas dos homens. Mesmo com uma atriz estonteante em cena, o filme só recorre à sua beleza nos momentos necessários (e que momentos!), preferindo ter como protagonista um personagem masculino. Assim, portanto, logo na cena inicial temos a comprovação disso, quando vemos Mateo tomando conta do ambiente e se posicionando como a mola propulsora da história. Veremos ainda a história sobre sua ótica, a partir de suas reações e de suas convicções quanto ao amor, sexo, traição etc.

Almodóvar divide o filme em dois momentos chaves, indo e voltando na trama com uma desenvoltura ímpar. A evolução de Mateo não está somente na visão e na falta dela (um ótimo recurso para marcar não só o tempo, mas também o momento dramático do personagem), mas sim em seus gestos, atitudes e, principalmente, na sua “visão” de mundo – foi mal o trocadilho. E essa visão de mundo é refletida em sua obra, o filme dentro do filme, o tal “Mulheres e Malas”, que o diretor só consegue filmar com sua musa inspiradora, aquela que mesmo não sendo a melhor atriz de todas, consegue despertar nele uma paixão que vai além da carne. É essa paixão que conduz Mateo para suas atitudes no passado, muito diferente daquele Mateo mais burocrático e infeliz do presente. Se, num dado momento, sua obra cinematográfica grita com força dentro de si mesmo e ela tenta expor isso ao mundo, no presente sua única vontade é transar com a primeira que aparecer e cumprir seus contratos já estabelecidos.

Ainda nessa relação de dualidade, Almodóvar brinca com rimas bem interessantes – e é bem legal vê-las na tela em diversos momentos do longa. A cena de sexo, do começo do filme (cheia de libido, mas fugaz), com as que ele tem com Lena (voraz, apaixonante, arrebatadora), são exemplos claros disso. Ainda tem a vontade de Mateo de realizar um filme sobre um filho que perdoa o pai, ao passo que lhe cai nas mãos uma proposta completamente oposta. Penélope, aliás, quando entra em cena consegue roubar quase todas as atenções para si. Claro, ela é a musa, deusa inspiradora do Olimpo de Almodóvar, que a utiliza melhor do que ninguém e, metalinguisticamente, projeta-se da mesma forma em Mateo, o cineasta. É tamanha a “semelhança” autobiográfica, que o cenário principal de “Mulheres e Malas” é praticamente o mesmo de “Mulheres Á Beira de um Ataque de Nervos” (só faltou Antonio Banderas…).

Com um roteiro afiado e bem amarrado, Almodóvar ainda brilha na direção, utilizando, como sempre, de suas cores fortes e de belos jogos de câmera. Ele sempre procura sair do óbvio e filmar a partir de ângulos diferentes, conduzindo o olhar do espectador de maneira bastante inteligente. As cores, claro, estão lá e pulam na tela, ganhando vida e sendo um show à parte.