
Caetano é hype. Isso é fato. Os profetas do apocalipse hype brasileiro já preparam suas pedras e tomates, mas não é bem assim. Nem todo hype é indesejável. Caê é um bom exemplo disso. Já disse aqui: ele quer mudar a música brasileira. Pode parecer pretensioso, mas… Bem, é pretensioso mesmo. Ele sempre foi assim. Mas agora ele ataca de indie – desde a roupa até a formação da banda – e de carioca.
Foi dessa forma que Caetano Veloso entrou no palco no último dia 5 de junho, em Salvador. Não sem antes esperar calmamente sua mãe, a centenária Dona Canô, se acomodar vagarosamente na lateral do palco para acompanhar o show do filho. Caê entra feliz e saltitante, mostrando-se claramente à vontade no palco – Concha Acústica do Teatro Castro Alves, local de saudosas lembranças para ele e para toda uma geração que viu ali o auge do cantor baiano. A banda Cê, competentíssima, é um espelho comportamental fiel ao Los Hermanos: quietos, tímidos e concentrados, pouco se locomovem e a empolgação só está nos olhos de quem vê Caetano, esse sim o real dono da festa. Concha lotada para ver ele, é claro, mas também para ter uma idéia de que banda era aquela, que formação inusitada era aquela que vinha agradando fãs e crítica ao longo de três anos. Era quase o Los Hermanos – porém muito melhor.
Caetano está apostando, de maneira correta diga-se de passagem, nas novas músicas. No entanto, não é com elas que ele abre o show. O público é brindado, meio que de surpresa, por um pout-pourri inusitado, bem típico do artista que resolve resgatar antigos ídolos e enaltecer o extremo popular. E assim ele fez, ao emendar numa mesma canção três “pérolas” do pagodão baiano com uma canção singela e mordaz de Paulinho da Viola (Caê tem suas esquisitices e dessa vez ele cismou que tem que homenagear Paulinho. Deixa o homem). Passando a surpresa inicial, ele segue com suas novas músicas – e é justamente aí que mora o perigo dessa nova turnê. Vou voltar ao pré-show para explicar melhor.
Eram 18h30 quando cheguei na porta da Concha. Show marcado para 19h (sem banda de abertura), fiquei a apreciar o movimento tomando a tradicional Skol. Para minha total surpresa, o público que ia chegando era 70% de tiozões e tiazonas, todos desconfortavelmente adentrando um local diferente ao que costumam freqüentar. Os outros 28% eram formados por jovens da idade da banda Cê e o restante circula pelos indie(otas) de plantão e alguns anônimos perdidos. Com essa platéia, fiquei curioso para ver a reação deles ao ouvirem “Menina da Ria”, “A Cor Amarela” ou “Lapa” (para não citar todas do “Zii & Zie”), canções que fogem completamente do status quo caetnesco que eles estão acostumados. O problema, então, estava criado. Na verdade, é mais um impasse estético e informacional. Acostumados às novas tecnologias, os jovens conseguem ter acesso mais rapidamente ao material novo do artista. Os tiozões e tiazonas não. E aí como acompanhar um show em que não se conhece 80% do repertório?

Dispersão. Foi isso que aconteceu, portanto. Em grande parte do espetáculo o público permaneceu sentado e disperso. Era um tal de levanta, conversa com o amigo ao lado, fala ao celular… E Caetano destilando seus novos sons. Vieram “Sem Cais”, “Por Quem”, “Lobão Tem Razão” e “Base de Guatánamo”. O público só se agitou de verdade quando Caê resolveu emendar duas pérolas do passado: “Maria Betânia” e “Irene”, curiosamente as duas em homenagem às irmãs do cantor. “A Cor Amarela” também chegou a levantar o público, mais pelo ritmo acelerado. Ninguém sabia cantar as letras do novo disco.
Há uma situação curiosa também. Em diversos momentos do show, Caetano pareceu muito mais carioca do que baiano – o que, se formos analisar bem, é coerente com as décadas em que o artista viveu mais lá do que cá. Mas será que o público estava esperando isso? Caetano era um carioca na sua estética corporal e física, além de se apresentar frente a um cenário carioca da gema: imagens do Rio no telão e uma enorme asa delta cobrindo o batera Marcelo Callado. Só faltou as pedras portuguesas em formato de ondas do calçadão do Leblon. Fora que o som indie, que agora Caetano se imerge completamente, remete muito a sons cariocas, como o já citado Los Hermanos, Do Amor e Rômulo Froes, dentre outros.
O público, meio perdido, lavou a alma mesmo em “Eu Sou Neguinha?”, momento de soltar a franga para os gays e lésbicas do local, ou seja, 40% do público. E teve também a já clássica “Força Estranha”, a típica última música “pra galera”, executada para que o público saia do show com uma ótima última impressão. E assim foi. Os garotos de 18 anos cantaram, os de 30 aplaudiram e os de 50 foram à loucura. E Caê abraçou a Bahia.
fotos: Fernado Amorim (A Tarde)